sexta-feira, 5 de agosto de 2011

"EU VOU VOTAR DE GRAÇA?"

No passado dia 17 de Julho, na primeira volta das eleições presidenciais, era esta a pergunta que ecoava na boca da esmagadora maioria dos eleitores são-tomenses. Nos luchans, nas roças, nas ruas das cidades e vilas de STP e, pasme-se, nos círculos eleitorais da diáspora. Os eleitores elevavam assim à parede do escândalo, um fenómeno que carinhosamente convencionamos apelidar de “banho”. O “banho” que lava de forma efémera a miséria do povo e ainda define os resultados eleitorais em STP. O “banho” que corrompe os nossos princípios éticos e que transformou a nossa democracia numa grande mentira. O “banho” que outrora se caracterizava pela COMPRA de consciência dos eleitores e que hoje evoluiu para a VENDA desalmada da dignidade de um povo.

Nas eleições legislativas de 2010, foi perceptível a vitória do voto de protesto sobre o “banho”, porque o povo, cansado do constante adiar da realização dos seus anseios, decidiu em larga maioria, conceder uma oportunidade ao único grande partido da nossa praça que ainda não havia chefiado um governo (embora seja ponto assente que esse mesmo partido também se tenha esmerado na boca de urna). Os analistas de ocasião precipitaram-se a declarar a morte do “banho” como factor preponderante no resultado de umas eleições e vaticinaram o regresso à normalidade democrática em poucos anos, porque aparentemente, seria insustentável os partidos políticos manterem aquele nível exorbitante de gastos, sem garantias de vitoria. A verdade é que nem um ano se passou para que pudéssemos constatar que afinal, as eleições de 2010 foram a excepção que confirma a regra e que o “banho” contínua de boa saúde e recomenda-se.

O povo são-tomense percebeu que na época das eleições, por alguns dias, ele passa a ser o centro das atenções e os políticos estão dispostos a tudo fazer para angariar o maior número de votos possíveis, por isso, fazem de tudo para tirar o máximo proveito dessa situação de vantagem temporária, já que é a única altura que estão em condições de reclamar uma parte do bolo financeiro que é disponibilizado pelos parceiros internacionais e amenizar por breves momentos, a situação de miséria a que foram votados por esses mesmos políticos. Hoje em dia, nas campanhas eleitorais em STP, quase ninguém está preocupado com os projectos e programas dos partidos, apenas uma minoria liga ao perfil ou ao passado dos candidatos e à quase nenhum eleitor, faz diferença que não haja debates sobre as ideias e as propostas que os candidatos e partidos apresentam ou mesmo que não apresentem nenhumas, porque simplesmente deixaram de acreditar que o país tenha solução e é-lhes indiferente as implicações que os seus votos terão no nosso futuro colectivo, assim, o ginbolo (dinheiro) tornou-se definitivamente a medida de todas as coisas e o critério supremo para definição do sentido do voto, ou melhor, para a definição da própria vontade de votar ou não.

Hoje em dia, as eleições em STP transformaram-se num gigantesco banquete financeiro em que cada um, dirigentes partidários, candidatos e eleitores vendem a alma ao diabo para conseguir garantir o seu quinhão. O eleitor são-tomense profissionalizou-se e transformou-se num verdadeiro perito na arte de extorsão, utilizando artimanhas requintadas para conseguir arrancar o máximo de dinheiro do maior número de candidatos ou partidos, porque se aperceberam que assim que acaba as eleições, as hipóteses de sequer, contactar com os eleitos, desaparece de imediato. Agora, chegamos ao cúmulo de ver pessoas a recusarem exercer o seu dever cívico se ninguém lhes “molhar a mão”, porque encaram esse pressuposto como uma obrigação de todos aqueles que precisam (desesperadamente) do seu voto. Agora, nas campanhas eleitorais em STP, cobra-se para tudo e mais alguma coisa e o eleitor transformou-se em figurante de luxo que exige ser pago a peso de ouro para participar nessa festa popular.

Hoje em dia, ninguém ousa convocar os eleitores para uma reunião de esclarecimento nas zonas de residência ou mesmo atender a um pedido para um reunião, sem “fazer um gesto” no final para agradecer aos presentes (cujo número chega a duplicar nos últimos minutos da reunião) a paciência que tiveram para ouvir as suas propostas. A não concretização “desse gesto”, pode significar a renuncia imediata da mensagem e do candidato, na melhor das hipóteses, ou, insultos e até agressões físicas, na pior das hipóteses.

Ninguém se atreve a fazer uma passeata sem garantir combustível, lanche e “subsídio de participação” a toda gente, inclusive aos motoqueiros e os populares que se juntam à festa, no meio do caminho, sem sequer serem ”convidados” e que depois vão aparecendo na sede de candidatura nos dias seguintes a reclamar o seu pagamento, com ameaças de distúrbios e, nessas alturas, pelos sítios onde passam, só se ouve dizer: “gente quer dinheiro só, gente quer dinheiro só” ou “se não trás dinheiro, nem vale a pena entrar aqui”.

Ninguém arrisca fazer um comício ou qualquer outro tipo de grande evento público, sem antes garantir um subsídio aos participantes e transporte aos que residem nos locais mais distantes, mesmo que se tenha como cabeça de cartaz, cantores de renome, nacionais e estrangeiros, para animar a festa, sob pena da mesma ficar condenada ao fracasso.

Nenhum activista ou dirigente ousa fazer acções de campanha porta a porta, sem ter o ginbolo para deixar aos residentes em forma de lembrança por ter lhes incomodado em suas casas com o “falar von von” de campanha. E em muitos casos, chega-se ao cúmulo de se renunciar brindes de campanha, se esses não se fizerem acompanhar de umas notas de dobra.

Mensagem?! Projectos?! Ideias?! Debates saudáveis?! O povo quer é dinheiro e o resto é tanga. Mas mesmo assim, cumprindo todos esses requisitos, no dia de votação, as pessoas recusam-se a exercer o seu direito cívico se não receberem o chamado “banho” de boca de urna, o derradeiro estímulo para votarem, ou a derradeira hipótese que têm para safar mais uns tostões aos desesperados políticos de ocasião. “Eu vou votar de graça?”, perguntam aos incrédulos "benfeitores", que se vêm forçados a soltar mais umas notas, sob pena de serem castigados na urna por tamanha falta de consideração ou ultrapassados pelos adversários mais abonados.

“Eu vou votar de graça?” É esse o grito de revolta de um povo que foi mal habituado e que agora se revela insaciável no banquete das eleições em STP; é esse o derradeiro acto dos figurantes da vergonhosa peça de teatro em que se transformou os nossos processos eleitorais; “Eu vou votar de graça?” é pois, a expressão máxima da crise de valores e de princípios que hoje graça indiscriminadamente na sociedade são-tomense, de alto a baixo, é a cereja no topo do bolo da indiferença e da descrença com que os são-tomenses olham hoje para o seu futuro colectivo. É, para os pessimistas, a pergunta que simboliza a morte anunciada do estado de direito democrático que sonhamos um dia construir no nosso São Tomé e Príncipe.

Está provado que o dinheiro é a condição necessária para as pessoas saírem de casa para votar. No próximo domingo teremos uma ideia do impacto que esse dinheiro (ainda) tem na definição dos resultados eleitorais em STP. Quem viver, verá.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

CONVERSAS SOLTAS XV - PINTO vs EVARISTO (Parte I)

Dois cidadãos eleitores, politicamente esclarecidos, trocavam assim duas ideias sobre a 2ª volta das eleições presidenciais em STP:

Eleitor 1 – Como é sócio, já sabes em quem vais votar nessa 2ª volta?
Eleitor 2 – Claro! O meu voto é sempre do Pinto e o teu?
E1 – Epá, eu vou votar no Patrice.
E2 – Patrice ou Evaristo? Que eu saiba, o candidato é o Evaristo, embora as vezes pareça o contrario.
E1 – É tudo a mesma coisa, pá. Eles defendem as mesmas ideias e querem o mesmo para o país. Só que o Patrice é mais novo, tem mais força, mais jeito para falar e fazer política, por isso é que ele aparece mais que o Evaristo. Ele não pode deixar o mais velho cair.
E2 – Ahm, então é essa a explicação…Ainda bem que reconheces que o Evaristo tem estado apagado e que o Patrice é que tem aparecido mais e comandado as coisas. Acho que isso é apenas uma amostra do que será as relações entre o presidente e o Governo caso o Evaristo ganhe. Como muita gente suspeita, iríamos ter um presidente pau mandado.
E1 – Também não é bem assim. O Evaristo é um homem discreto, de consenso, que não gosta de provocar roturas, mas isso não quer dizer que seja fraco ou pau mandado.
E2 – Aié? Então que nome se dá a um homem que reconheceu publicamente que não entrou nesta corrida por vontade própria? Um homem que chegou mesmo a dizer numa entrevista à TVS que para ele, depois dos 65 anos os políticos deviam abandonar a politica activa e dedicar-se a outras actividades? E mais, disse que nem queria ser presidente da Assembleia Nacional e que foi forçado a aceitar porque era o número dois do seu partido. O Evaristo tem 70 anos e que eu saiba, ser presidente da república é estar na política activa, ou não?
E1 – Epá, as pessoas podem mudar de ideias. O homem agora pensa de forma diferente depois de responder ao apelo patriótico do seu partido. Depois, o Pinto até é mais velho que ele e também é candidato.
E2 – Sim, o Pinto é mais velho, mas não foi o Pinto que estabeleceu o limite de 65 anos para a reforma politica e acho que ser candidato à um cargo tão importante como a presidência da republica, acima de tudo, tem que ser um acto de vontade e o Evaristo disse claramente que nunca sentiu essa vontade. Essa é a grande diferença entre eles.
E1 – Nesse aspecto tens razão. O Pinto tem até vontade de mais.
E2 – Não é vontade de mais, é perseverança. O homem acredita que ainda tem muito a dar ao país e por isso pede ao povo uma oportunidade para corrigir a má imagem que deixou no passado e contribuir para a união dos santomenses e o progresso de STP.
E1 – Pois é, só é pena que ele não tenha encontrado outras formas de contribuição nos 20 anos que ficou em casa a descansar, a espera de uma oportunidade para voltar ao poleiro. Não te incomoda o facto do homem achar-se um predestinado e só dar o ar da sua graça no período das eleições presidenciais?
E2 – Não vamos estar a falar sempre do passado, pá. O que me incomoda é a grave crise de liderança que o país enfrenta. Nós precisamos de um líder, de uma figura com carisma e peso institucional e com sentido de estado para credibilizar o cargo de presidente da república, fazer as pessoas voltarem a acreditar nos políticos e ajudar a meter isso nos eixos.
E1 – E esse líder é o Pinto?! O país precisa é de estabilidade para que o desenvolvimento chegue e não de um ditador armado agora em democrata.
E2 – Vocês só sabem falar nessa tal de estabilidade… O projecto de sociedade do Evaristo resume-se a uma palavra: Estabilidade. Ao menos sabes o que é isso?
E1 – Claro. Estabilidade é ter o presidente e o primeiro-ministro do mesmo partido. Assim ninguém empata ninguém e o presidente deixa o governo trabalhar em paz. È disso que o país precisa para avançar.
E2 – Isso para mim tem outro nome…Então por essa lógica, nem valia a pena haver eleições. Nomeava-se o Evaristo presidente e poupávamos uns tantos milhões, já que achas que essa estabilidade apenas tem a ver com a cor política dos candidatos presidenciais e do Governo.
E1 – Eu não disse isso. Mas hás de convir comigo que no contexto actual, é o Evaristo que melhor pode garantir a estabilidade governativa no país.
E2 – Pela lógica do ADI, sim. A eleição do Evaristo significa transformar o país num bar aberto para os desmandos do Patrice, sem um contra poder para fiscalizar as acções do governo.
E1 - Isso não é verdade. Teremos sempre o parlamento para fiscalizar o Governo. Não te esqueças que o ADI não tem maioria parlamentar.
E2 – Ahahah…Fazes-me rir…Achas que em caso de vitoria do Evaristo, o Patrice teria dificuldades em comprar um ou dois deputados para cimentar o seu poder absoluto? É também por isso que vou votar no Pinto, para impedir que o país regresse a ditadura.
E1 – És engraçado. Vais votar num ex ditador para que o país não volte a ditadura…Com o Pinto é que isso será garantido. O homem não esta habituado a governar em democracia, a ser contrariado e a ter um papel secundário na condução dos destinos do país. Ele vai ter dificuldades em aceitar os actuais poderes limitados do presidente e vai logo criar complicações para o governo cair e fazer regressar o MLSTP ao poder.
E2 – Em primeiro lugar, o Pinto é um candidato independente que já não tem nada a ver com o MLSTP. Em segundo lugar, depois do vosso chefe Patrice ter andado a fazer aqueles ataques pessoais ao Pinto, acredito que fica difícil haver uma boa convivência entre o presidente e o governo… Por outro lado, o Pinto tem reagido bem, de forma pedagógica e a maneira como ele lidar com isso, em caso de vitória, vai nos mostrar o sentido da sua presidência. Acredito que o seu sentido de estado vai falar mais alto.

(continua)

terça-feira, 14 de junho de 2011

O PRESIDENTE QUE MERECEMOS

É comum ouvirmos dizer que cada povo tem os dirigentes que merece e, no nosso caso, acreditamos tão cegamente na premissa que somos um povo “má raça”, burro, bandido, invejoso e preguiçoso que desde que nos tornamos independentes fomos interiorizando e aceitando a triste sina de que, por causa desse handicap, nos está vetado o simples desejo de ter melhores e mais capazes dirigentes, porque não os merecemos. Essa espécie de desígnio nacional prevaleceu nos primeiros quinze anos da nossa independência, onde pouco ou nada fizemos para contrariar o tipo de liderança que nos foi imposta e, com o advento da democracia, mesmo ganhando o direito de escolher livremente os nossos líderes, continuamos a promover a mediocridade e a incompetência, salvo raras excepções, fazendo sistematicamente escolhas erradas e pior, conformando-nos com essas escolhas erradas, porque há muito tempo que nos acomodamos à ideia de que não merecemos coisa melhor, logo, acreditamos que estamos fatalmente condenados a ter que escolher o menos mau, entre os maus.

É sobretudo por esse pressuposto que verificamos hoje a existência de um número sem precedentes de candidatos ao cargo de presidente da república. Por termos colocado a fasquia em tão baixo nível, por termos sido tão desleixados nos critérios de selecção dos nossos líderes, qualquer um acha que reúne os requisitos necessários para exercer o cargo do mais alto magistrado da nação. Sei perfeitamente que a nossa constituição estabelece como condição básica, a idade superior a 35 anos e a cidadania são-tomense de origem, mas todos estamos conscientes que em termos práticos, esse é um critério formal que visa garantir que apenas os “verdadeiros”filhos da terra estejam habilitados a exercer o cargo de presidente da república, mas para atingir tal patamar, é necessário muito mais do que isso. Ou pelo menos, devia ser necessário muito mais do que isso, se nós, enquanto povo, tivéssemos contrariado desde o inicio a ideia de que apenas merecemos dirigentes e líderes “fracos” e estabelecido parâmetros de exigência mais elevados para que poucos se sentissem qualificados para abraçar tão nobre causa. Se é verdade que hoje em dia, qualquer um, com um bocado de sorte, jogo de cintura e muito dinheiro pode ser presidente de São Tomé e Príncipe, é mais verdade ainda que na conjuntura actual, precisamos urgentemente de um BOM presidente, ou melhor, merecemos no mínimo, um BOM presidente e, não tenhamos dúvidas, dos candidatos e pré candidatos conhecidos, a esmagadora maioria não está à altura desse desafio.

Em condições normais, apenas dois ou três são-tomenses em cada geração podem alimentar a esperança de serem eleitos presidentes da república. Esse facto, só por si, reflecte a importância, exclusividade e a responsabilidade do cargo, por isso, de uma vez por todas, nós, enquanto povo que conquistou a liberdade de escolher os seus líderes, a bem do nosso futuro colectivo, temos que começar a mentalizar-nos que somos muito melhores do que aquilo que muitos querem fazer transparecer e, assumindo como verdadeira a premissa de que cada povo tem os governantes que merece, temos que exigir mais qualidade e maior competência de todos aqueles que têm a pretensão de liderar os destinos da nossa pátria. Para começar, temos que exigir a actualização da lei eleitoral e a implementação de critérios mais apertados para que as eleições presidenciais (e as outras também) não se transformem numa feira de vaidades, onde a maior parte dos candidatos decide concorrer apenas para se auto-promover, dar o seu “show” e safar algum “ferro” dos mais fortes, na campanha eleitoral, em troca de apoio camuflado. Não sejamos também, hipócritas: Para um país com apenas 170.000 habitantes é inadmissível a proliferação de candidatos que se verifica na actual corrida ao palácio cor-de-rosa (não me venham falar em prova de maturidade democrática ou coisas do desse género). Assim como é admissível permitirmos que pessoas sem escrúpulos se aproveitem da facilidade de se tornarem candidatos presidenciais para pedir dinheiro aos chamados “doadores internacionais” e empresários estrangeiros, oferecendo contrapartidas mirabolantes que ceifam logo a esperança de um futuro melhor para todos os são-tomenses, caso sejam eleitos. É inadmissível permitirmos que pessoas com problemas pendentes na justiça, com provas dadas de incompetência e má fé na gestão da coisa pública possam aspirar o cargo de presidente da república e, de uma vez por todas, não podemos continuar a permitir que pessoas que mal conhecem a constituição que vão jurar defender, que carregam o espectro da corrupção, que servem interesses obscuros e que encaram a presidência da república como o meio ideal para engordar as suas contas bancárias, através de negociatas opacas e usurpação de bens públicos, possam sequer, sonhar em ser candidatos presidenciais. Porque, volto a frisar, o primeiro passo para termos o presidente que merecemos, é começar a estabelecer critérios de selecção sérios (formais e não formais) que permitam a emergência dos bons candidatos e façam com que os maus candidatos passem a ser a excepção e não a regra, caso contrário, jamais nos libertaremos das amarras da mediocridade e incompetência que se instalaram confortavelmente pelas bandas do palácio cor-de-rosa.

É claro que em última analise, o povo será sempre soberano nas suas escolhas, mas custa alguma coisa sermos mais exigentes? Custa alguma coisa assumir que merecemos mais e melhor? Podemos começar já a mudar de paradigma no próximo dia 17, mostrando um cartão vermelho à todos aqueles que apenas se lembram do povo nas alturas das eleições, aos que nunca moveram uma palha para defender os mais necessitados, aos que demonstram uma ambição desmedida e uma ânsia desenfreada pelo poder, aos que apenas entraram nessa corrida para vender depois o seu apoio na segunda volta, aos que, tendo ocupado vários cargos de responsabilidade, apresentam uma folha de serviços oca, aos que sempre se abstiveram de exercer os deveres basicos de cidadania, aos oportunistas, aos incompetentes, aos preguiçosos, aos levianos, aos parasitas, aos delinquentes e aos populistas, cujas candidaturas, vazias de convicções, ideias e de projectos, chegam a ser um insulto à nossa inteligência colectiva. Não podemos estar a apostar sempre nos mesmos jogadores, nos mesmos treinadores e na mesma táctica e esperar que o resultado do jogo mude. Está na hora de termos um presidente credível, sério, competente, trabalhador, dedicado, com sentido de estado, com provas dadas de elevado patriotismo, que não esteja comprometido com nenhum partido político, que seja uma referência para todos nós e que ponha São Tomé e Príncipe e os são-tomenses sempre em PRIMEIRO LUGAR, para finalmente podermos construir juntos, UM PAÍS PARA TODOS. Não acham que já o merecemos?

segunda-feira, 9 de maio de 2011

CONVOCATÓRIA PARA MUDAR SÃO TOMÉ E PRINCIPE

“ Seja a mudança que você quer ver no mundo” – Gandhi

Começou há cerca de duas semanas o recenseamento eleitoral de raiz nas comunidades são-tomenses da diáspora, onde as contas oficiosas apontam para a existência de cerca de 60 mil “filhos da terra”, espalhados por Portugal (25.000), Angola (20.000), Gabão (12.000) e Guiné Equatorial (3.000). Há quem garanta que esse número peca por defeito, mas mesmo sem dados estatísticos concretos, creio que não estarei muito longe da verdade se disser que entre 30% a 35 % da nossa população encontra-se actualmente a residir fora do território nacional (imaginem o que seria de STP se todo esse capital humano fosse aproveitado em todas as suas valências). No caso de Portugal, soube pelo presidente da ACOSP (Associação da comunidade de são-tomenses em Portugal) que estavam inscritos no SEF (Serviços de emigração e fronteiras) até 2009, cerca de 17 mil cidadãos são-tomenses com situação de residência regularizada. Se juntarmos à esse numero, os que se encontram em situação ilegal, as centenas de estudantes de cursos profissionais que têm chegado nos últimos tempos e todos aqueles que têm a dupla nacionalidade, creio que não é de todo ilusório falar-se na existência de uma comunidade de 25.000 são-tomenses em terras lusas.

Infelizmente, por variadíssimas razões, o recenseamento eleitoral em Portugal (acredito que nas outras paragens também) não está a corresponder às expectativas da EMBSTP/P e das várias associações e personalidades que se têm engajado de forma incisiva na luta árdua de fazer espelhar no número de eleitores, a dimensão da nossa comunidade aqui residente. Ao tradicional comodismo, desinteresse, descontentamento, indiferença e descrença dos são-tomenses na classe política e no resultado efectivo dos processos eleitorais, junta-se a desorganização e o atraso na planificação dos trabalhos por parte das entidades responsáveis, a descoordenação entre o CEN, EMBSTP/P e as associações da comunidade, a lentidão, impreparação e aparente desmotivação dos agentes recenseadores por suposta falta de pagamento dos seus honorários, a distribuição geográfica pouco eficiente das brigadas de recenseamento e a falta de publicitação pormenorizada e abrangente do próprio processo de recenseamento (apesar de estar a passar o spot na RdpÁfrica, não acredito que as pessoas saiam de suas casas para irem consultar primeiro o calendário de trabalho no nosso consulado para depois se dirigiram ao posto de recenseamento e, o calendário que anda a circular nos jornais digitais está incompleto e nem todos tem tido acesso às actualizações e emendas que tem sofrido. Sem referir o facto da geração menos jovem não estar muito ligada às modernices da internet). Todos esses factores têm contribuído para a fraca adesão dos cidadãos da diáspora à esse processo tão importante na definição do nosso futuro colectivo e o resultado desse “défice” de cidadania é que em 15 dias apenas foram recenseados cerca de 2.000 eleitores no tal universo de 25.000 emigrantes são-tomenses que residem em Portugal. Muito pouco, dirão alguns. Muito pouco mesmo, digo eu, com alguma desilusão.

A democracia, logo a seguir à independência, é claramente a nossa mais valiosa conquista colectiva e a expressão máxima dessa realidade é a possibilidade de podermos eleger livremente os nossos dirigentes e assim, condicionar de forma directa a condução do nosso destino enquanto povo soberano. Pela força do voto, podemos premiar aqueles que servem bem os interesses do nosso país e censurar todos os que dele se têm servido apenas para obter ganhos pessoais ou partidários. Pela força do voto podemos manifestar de forma assertiva o nosso grau de desilusão pelo estado actual do nosso país e fazer ouvir de forma efectiva os nossos anseios e frustrações colectivas e, apenas pela força do voto podemos influenciar a VERDADEIRA MUDANÇA no panorama político nacional por que tanto clamamos e esperamos. Portanto, VOTAR É PODER e nós, enquanto cidadãos no pleno gozo dos nossos direitos, enquanto patriotas que aspiram um futuro melhor para o nosso São Tomé e Príncipe, não devemos nos abster conscientemente desse processo e entregar de mão beijada “o ouro ao bandido”. A distância geográfica e o abandono a que fomos votados pelos nossos governantes não podem servir de desculpa para o quase total alheamento dos problemas da “terra” que se tem verificado em grande parte dos nossos emigrantes, porque mesmo que achemos (erradamente) que os problemas do país não nos afectam mais, mesmo que tenhamos melhores condições de vida do que a maioria dos nossos compatriotas que por lá ficaram, mesmo que tenhamos o nosso emprego que nos permite comprar ou alugar uma casita e um carrito e levar uma vida “minimamente confortável”, que nos permite saborear o bacalhau e o bom vinho tinto de Portugal, que nos permite vestir bem, ter acesso às escolas e hospitais com alguma qualidade e até em alguns casos, cometer a extravagancia de ir passar férias no nosso país todos os anos e “exibir” os nossos euros, não nos podemos esquecer dos nossos familiares, amigos e conhecidos que continuam por lá, sem emprego, sem saúde, sem educação, sem estrada, sem água, sem luz eléctrica e sem perspectivas nenhumas de melhoramento das condições básicas para terem uma existência digna. Não nos podemos esquecer que apesar de todas as “mordomias” que temos no estrangeiro, nunca nos sentimos totalmente realizados e felizes longe do nosso solo pátrio e todos sonhamos um dia regressar à “grota”, por isso, era até conveniente que ela se encontrasse em melhores condições do que a deixamos. E por ultimo, não podemos nos esquecer do facto dos nosso compatriotas estarem sistematicamente a acusar-nos de cobardia e de comodismo, já que passamos a vida a “mandar bocas” e a reclamar de tudo e de todos para depois, na prática, pouco ou nada fazermos para mudar o rumo das coisas, nem mesmo quando temos a possibilidade de expressar o nosso sentido de voto de cinco em cinco anos, nas eleições presidenciais (com que “cara” poderemos continuar a nos queixar do facto de não votarmos nas eleições legislativas, se continuarmos a desprezar dessa forma o direito que já conquistamos de votar nas presidenciais?)

Por tudo isso, tomo a liberdade de convocar os meus concidadãos residentes na diáspora para começarmos a mudar São Tomé e Príncipe. Não falo apenas de uma mudança que se materialize na troca de rostos e de nomes das pessoas que nos governam, mas numa mudança efectiva na forma de fazer política, na forma de nos relacionarmos e discutirmos os problemas colectivos, na nossa própria mentalidade e sobretudo, na nossa atitude em relação aos deveres de cidadania. Embora essa responsabilidade cívica não se esgote na participação activa na vida política, não podemos de modo algum desperdiçar a janela de oportunidade eu se abre agora com as eleições presidências, cujo resultado afectará positiva ou negativamente as nossas vidas de forma incontornável. Se é certo que não podemos correr o risco de voltar a fazer uma escolha errada, acima de tudo, não podemos nos negar o direito e o dever de participar no processo de escolha. Vamos pois, começar por encarar de outra forma o processo eleitoral em todas as suas formas de expressão, vamos começar por participar e encorajar os outros a participarem nesta festa da democracia, com a convicção de que apenas por essa via poderemos condicionar o poder político e com a esperança renovada de que desta vez, os resultados podem sim, ser diferentes.

Portanto, em razão de todos os pontos focados, lanço um veemente apelo à todos aqueles que ainda não se resignaram, à todos aqueles que ainda acreditam que STP “pode dar certo”, aos responsáveis das diversas associações de são-tomenses na diáspora, aos lideres comunitários, aos representantes dos partidos políticos, aos representantes das diversas candidaturas e a todos os cidadãos de boa vontade, no sentido de nos mobilizarmos e ajudarmos o CEN e a nossas Embaixadas e Consulados a revitalizarem o processo de recenseamento eleitoral de forma a termos uma verdadeira correspondência entre os números de cidadãos de cada comunidade e o número de eleitores. Vamos sugerir de forma responsável as alterações e ajustes que acharmos pertinentes, vamos arranjar as condições logísticas necessárias para que as brigadas de recenseamento cheguem mais próximo dos cidadãos, vamos publicitar de forma mais vigorosa esse processo, utilizando todas as formas de comunicação que estão ao nosso alcance, vamos exigir mais trabalho e maior organização por parte dos agentes recenseadores e se concluirmos que o tempo de que dispomos é escasso, vamos também exigir o prolongamento do processo de recenseamento por mais uma ou duas semanas, porque nessas coisas da democracia, o povo é quem mais ordena e se o povo estiver organizado e unido, pode ordenar TUDO.

Não se esqueçam, VOTAR É PODER, NÃO DEIXEMOS QUE OS OUTROS DECIDAM O NOSSO FUTURO POR NÓS.

(Passem a mensagem)

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

NO PAÍS DOS "BRINCA - NA - AREIA"

Nota prévia: “Brinca – na - areia”, na gíria do futebol, é o nome dado aos jogadores tecnicistas e talentosos que normalmente empolgam o publico e dão espectáculo com os seus dribles e jogadas mágicas, mas que na prática, pouco ou nada produzem em prol da equipa. São individualistas, egoístas, pouco dados aos rigores da disciplina táctica e alheiam-se das jogadas assim que perdem a bola, não ajudando a equipa quando ela tem que defender. Fazem desesperar os companheiros de equipa e contribuem de forma objectiva para a subida da tensão arterial de qualquer treinador, mas, por incrível que pareça, é deles que o povo gosta.

Ultimamente, cada vez que oiço ou leio notícias sobre o nosso São Tomé e Príncipe, lembro-me das palavras do senhor Procurador-geral da Republica quando foi ouvido na 5ª comissão da Assembleia Nacional há umas semanas atrás: “Nesta República democrática, andamos todos a brincar uns com os outros””, afirmou ele, do alto da sua perspicácia intelectual, todo feliz da vida, por ter chegado a uma conclusão que nos tem escapado esses anos todos. Na altura registei com agrado o facto do nobre Procurador-geral não se ter excluído do grupo dos brincalhões. Só por isso, subiu uns pontos na minha consideração. O facto é que 35 anos depois da nossa independência, temos uma nova teoria para explicar o nosso falhanço enquanto nação soberana: Sofremos todos do complexo de Peter Pan, ou seja, não nos fizemos HOMENS e continuamos a olhar o País como se fosse a nossa casinha de brincar! Já agora, convém sublinhar que também não me excluo do lote dos brincalhões, porque se uns têm usado e abusado das brincadeiras, em muitos aspectos, os que assistem impávidos e serenos e pouco ou nada fazem para inverter a situação, têm também a sua cota parte de responsabilidade nesse brinca – brincando colectivo. Portanto, podemos dividir a classe dos brincalhões entre os activos e passivos. Trocando por miúdos ou melhor, falando em “futebolês” corrente: Há os “brinca – na – areia”, que vão ludibriando a torcida com o seu arsenal de dribles e jogo de cintura, e há o povo carneiro que os aplaude e os promove à ídolos instantâneos, não se apercebendo que a equipa, enquanto um todo, se vai afundando num mar de derrotas consecutivas.

Mergulhando de cabeça nessa tese que o iluminado Procurador – geral trouxe ao debate, constatamos numa primeira analise que, infelizmente, as brincadeiras que vão acontecendo no nosso País, já não têm nada a ver com o tradicional jogo de bola de peúga num terreno baldio qualquer, nem com inocente jogo de lata ou o saudoso (e saudável) “papá com mamã” (brincadeiras realmente infantis e inocentes). Hoje em dia, ancorados nas pranchas do progresso e do desenvolvimento tecnológico, a que se junta a ambição desmedida e um sentido de impunidade afinadíssimo, andamos mais virados para a Batalha naval, pôker, Age of Empires, Paradise gangsters ou o Comand & Conquer e similares, todos eles, jogos de estratégia, de conquista de poder e de usurpação de recursos de outrém (financeiros, naturais, humanos e.t.c). Os nossos brincalhões, hoje em dia, são pois, peritos na arte de manipular, fazer batota, roubar, enganar, explorar e sobretudo, não olham aos meios para atingirem os fins preconizados. Trocando agora por graúdos: A expressão máxima da tese da “brincadeira” em termos objectivos, é a facilidade com que nos entregamos às politiquices e às intrigas “palacianas” e confundimos as relações institucionais com as relações pessoais, dando sistematicamente mais valor às segundas, para o bem e para o mal e, qual meninos mimados, estamos sempre a fugir às nossas responsabilidades e deveres, colocando a culpa de tudo que está errado nos outros, assumindo apenas a paternidade das coisas boas, que vão sendo cada vez mais raras, diga-se de passagem. Noutro patamar, estamos sistematicamente a empolar o que é acessório e secundário, relativizando ou mesmo negligenciando por completo o que é realmente importante, sem falar do facto da nossa sociedade encontrar-se super politizada em todos os níveis e estratos sociais, o que fatalmente acaba por amordaçar o nosso pensamento crítico e corromper o nosso discernimento. Hoje em STP, muito pouca gente consegue pensar e emitir opiniões sobre o País com total independência partidária e menos ainda o conseguem fazer de forma frontal e responsável, sem se esconderem no anonimato dos panfletos, dos fóruns de discussão on line ou no agora, muito em voga, espaço de comentários do jornal “Tela non”. A política tornou-se o factor determinante na vida das pessoas e sobrepõe-se até às relações familiares, comerciais e institucionais. O que conta acima de tudo em STP é saber se alguém “é nosso ou não”. Se somos de um determinado partido e queremos "safar a nossa tese", avalisamos e defendemos suinamente tudo que esse partido faz, esteja certo ou errado e condenamos e criticamos tudo que os outros partidos fazem, estejam certos ou errados. Se o partido da nossa simpatia está no governo, tudo o que faz de errado é culpa do governo anterior ou são manobras da oposição para criar instabilidade política e não os deixar trabalhar. Ou seja, os nossos correligionários passam a ser os melhores e os maiores em tudo, autênticos paladinos da verdade e os únicos que querem trabalhar para o povo, a quem não conseguimos, em circunstância nenhuma, reconhecer incompetência, burrice ou má fé. O mérito e a competência apenas são elogiados e reconhecidos quando nos convém ou quando servem os nossos desígnios partidários, caso contrário, arranjamos logo um pequeno defeito para empolar o nosso tradicional “bota – abaixismo” ou lançamos boatos e inventamos calúnias para esconder a inveja latente, que nos impede de conviver com o sucesso dos outros, mesmo que esse sucesso tenha impacto significativo na concretização dos nossos anseios colectivos. E o pior é que somos facilmente manipulados pelos caciques da tribo, que, de forma sistemática e leviana vão fomentando e perpetuando esse tipo de situação, usando e abusando do populismo barato e de jogadas de bastidores para ir semeando a discórdia e a confusão entre o pessoal da plebe, descredibilizando pessoas, instituições e, pasme-se, órgãos de soberania, de tal forma que as vezes, torna-se quase impossível distinguirmos “os artistas” dos “chefes de bandido” nos jogos de estratégia que vamos assistindo em STP.

Para mal dos nossos pecados, nesses últimos tempos, o que não tem faltado são exemplos que continuam a confirmar essa “risonha” realidade. Os “brinca – na – areia” continuam a dar o seu show, a empolgar o povo e a ludibriar os adversários, com as suas fintas estonteantes, pontapés de bicicleta e cruzamentos de trivela. O engraçado é que olhamos para o Placard e por baixo do nome da nossa equipa vislumbramos um expressivo 0 (zero). Golos que é bom, nada! Resultados positivos, que é o que se espera, nem vê-los! E já andamos há 35 anos nessa brincadeira.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

"O POVO É QUEM MAIS ORDENA"

Zeca Afonso celebrizou essa frase na música que despoletou, por assim dizer, a revolução dos cravos no dia 25 de Abril de 1974, que, como sabemos, derrubou a ditadura do Estado Novo e fez implantar a democracia em Portugal. O ano de 2011 trouxe-nos (para já), mais dois exemplos que confirmam a validade intemporal dessa premissa: Os povos da Tunísia e do Egipto, empolados por uma necessidade desesperada de melhoria das suas condições de vida e simultaneamente, pela vontade frenética de abraçar e vivenciar os preceitos da democracia representativa, saíram às ruas e ORDENARAM o fim dos regimes ditatoriais do Ben Ali e Hosni Mubarak que os governavam há 23 e 30 anos, respectivamente. O efeito de contágio dessas corajosas acções é já inegável e irreversível e, embora muitos outros ditadores daquela zona de África (e não só) comecem a precipitar a implementação de algumas reformas “ de fachada” nos seus regimes, creio que não tardará muito para que a revolução também lhes bata à porta, ou melhor, lhes entre pelo palácio dentro, sem bater à porta e sem pedir permissão, como aliás, deve ser apanágio de uma “boa” revolução.

Ao assistir o desenrolar desses acontecimentos, não pude resistir à tentação de imaginar um cenário semelhante no nosso São Tomé e Príncipe e essa tentativa de dar asas às ilusões esbarrou logo numa questão fundamental: Será que nós, São-tomenses, seriamos capazes de nos congregar em volta de um objectivo ou sonho comum de forma a forçar a criação de condições para torna-lo realidade?! Duvido muito, mas, embora pareça contraditório, quero acreditar que seja possível. Já perceberão porquê.

Naturalmente que a nossa revolução, a acontecer, não seria para conquistar a independência ou a democracia, porque essas, com maior ou menor sacrifício, com maior ou menor luta, já as conquistamos e, com maior ou menor expressão, já as vivemos. Mas nós, enquanto povo de um País consecutivamente adiado, com problemas estruturais graves, sentimos que ainda temos muitas conquistas a fazer e certamente muitas delas requererão a emergência de uma alma revolucionária que até hoje tem andado perdida ou subjugada pela pacatez e comodismo que caracteriza o homem São-tomense, cuja expressão máxima podemos encontrar no nosso tão falado “leve – leve”, que, consciente ou inconscientemente, adoptamos como filosofia sagrada da nossa existência. “Leve – leve” para tudo, “leve -leve” sempre.

Noutro patamar, como ficou mais uma vez provado na Tunísia e Egipto, uma revolução para ser bem sucedida carece de 5 ingredientes fundamentais: União, altruísmo, coragem, sacrifício e perseverança. Ou seja, exactamente todas as características que desapareceram (ou nunca chegaram a fazer parte) do ADN da maior parte do povo São-tomense. Somos egoístas; somos desunidos; somos invejosos; somos cobardes e poucos dados à sacrifícios, principalmente à sacrifícios colectivos. E se juntarmos à tudo isso, a facilidade com que actualmente se vende e se compra consciências no nosso País, concluímos que qualquer tentativa para desencadear uma revolução morre logo à nascença. Senão vejamos: Em STP, se alguém tiver a brilhante ideia de “inventar” uma revolução, o nosso tradicional comodismo o convence logo a desistir, dizendo que não vale a pena lutar, que as coisas não vão mudar. E se ele for teimoso e quiser mesmo assim avançar, terá sérias dificuldades em arranjar apoiantes para a sua causa, mesmo que ela seja uma causa colectiva. Se por um passe de magia, conseguir convencer os outros a juntarem-se à ele e avançar com os protestos na rua, a nossa cobardia nos fará recuar assim que a polícia de choque aparecer, ou, no limite, assim que alguém levar com um cassetete no lombo ou um tiro intimidador for disparado para o ar pelas “forças opressoras”. Se mesmo assim, houver pessoas decididas à darem o corpo ao manifesto, como quem diz, à dar o lombo aos cassetetes e o peito à balas, sacrificando-se por um bem maior, o nosso egoísmo e desunião falará mais alto e acabaremos por nos dispersar de imediato, todos contentes por não termos maculado o nosso querido lombinho. E se mesmo assim, num cenário já utópico, decidirmos continuar com a revolução e enfrentar unidos, todas as consequências desse acto corajoso, o poder instituído chamará os cabecilhas da coisa para uma reunião à porta fechada e lhes acenará com uns tostões em troca da rendição incondicional (se calhar isso acontecia assim que o nosso revolucionário conseguisse juntar uns gatos pingados e ameaçasse fazer barulho). Saiam todos contentes do tal encontro, recolhiam os megafones e cartazes, se os houvesse, anunciariam aos outros coitados o fim da revolução e dirigiam-se para o bar mais próximo, onde iam vangloriar-se da sua esperteza saloia e gastar parte do dinheiro arrecadado na comemoração, que hoje em dia é sinónimo de “ comer água” como se não houvesse amanha. É por tudo isso que tenho sérias dúvidas que sejamos capazes de nos “revolucionar” como mandam as regras.

Por outro lado, se quisermos ser optimistas, sob certa perspectiva, podemos afirmar que em São Tomé e Príncipe já vai havendo uma espécie de “minis revoluções” de tempos em tempos, a título individual ou envolvendo pequenos grupos de pessoas, embora o facto de não serem acções consertadas de massas, lhes confira por ora, o redutivo título de “pequenos motins”: Os protestos sobre a falta de água e luz em determinadas zonas; Os protestos sobre a falta de géneros de primeira necessidade no mercado ou sobre o aumento dos preços dos mesmos; Os protestos sobre a situação da justiça; Os protestos contra a exagerada cedência de roças e terrenos aos políticos, também em determinadas zonas; Manifestações de determinados sectores da sociedade (ora jovens, ora motoqueiros, ora funcionários públicos, ora palaiés) e.t.c. Todas essas “minis revoluções”, na sua essência, têm se revelado inócuas e infrutíferas, já que são efémeras, dispersas no espaço e no tempo, não conseguem mobilizar a opinião pública de forma sustentada e duradoura e, são facilmente reprimidas, por acção da policia, pela intimidação politica ou pela força do dinheiro. Sem falar que na prática, nada de concreto conseguem alcançar, além do sistemático renovar de promessas. De qualquer forma, é por esses pequenos laivos de indignação sectorial que quero acreditar que o nosso espírito reivindicativo não está totalmente morto e que sim, que podemos nos congregar em torno de um desígnio nacional e nos “revolucionar” de verdade, como um povo que ORDENA e constrói o seu futuro, caso a situação do País venha a tornar-se realmente incomportável. Continuemos então, com as nossas “minis revoluções” e quem sabe um dia, com a prática, conseguimos dotar-lhes dos elementos necessários para que elas se tornem GRANDES. Acredito que a próxima tenha já data marcada para finais de Julho, nas eleições presidenciais. Vamos ver se o dinheiro continua a falar mais alto do que o nosso amor à pátria.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

DESPORTO ESCOLAR: UMA NECESSIDADE URGENTE.

Na semana passada, uma boa notícia fez-me viajar por alguns dos momentos felizes da minha adolescência e num exercício de pura nostalgia, deliciei-me com as lembranças de capítulos, pessoas e lugares que me marcaram nessa vida. Falo do regresso do desporto escolar aos estabelecimentos de ensino de São Tomé e Príncipe, anunciado pelo Secretario de estado da juventude e desporto. O desporto escolar no meu tempo, envolvia muitas valências e varias modalidades, mas a sua vertente competitiva a nível do futebol era sem dúvida, a parte mais apetecida. Quem viveu a experiencia dos campeonatos de futebol 5 inter-turmas nas escolas secundárias, saberá certamente do que falo e não deixará de sentir uma certa saudade dos momentos de camaradagem, união e convívio que esses campeonatos nos proporcionaram, além do natural amor à prática do desporto, que esses jogos despertavam na malta jovem.

Lembrei-me primeiro da minha turma da 6ª classe, na ex-Associação dos socorros mútuos na Trindade, uma espécie de posto médico abandonado que durante alguns anos foi transformada em escola secundária improvisada com 5 salas de aulas. A turma G era a turma dos mais velhos, quase todos repetentes e apenas por um atraso no processo da minha transferência de Luanda, fui para lá remetido. Ainda bem. No campeonato do ano lectivo 88/89, a nossa turma dominou e “massacrou” os adversários, terminando a competição só com vitórias, tanto no sector masculino, onde pontificava o Kichu, jovem talento que mais tarde chegou mesmo a envergar a camisola da equipa principal de futebol 11 da Trindade, como no sector feminino, onde davam cartas, a Alcinda “mulata”, ponta de lança mortífera e uma guarda-redes aguerrida que defendia tudo que havia para defender, cujo nome não consigo recordar. Na altura, a timidez em mostrar os meus dotes futebolísticos em público e o excesso de craques, impediram-me de fazer parte da equipa. Como era o benjamim da turma, tive que contentar-me com a posição de homem da logística (vulgo, “aguadeiro”). Os fins-de-semana de competição eram uma festa que apenas por motivos maiores alguém falhava. Assistíamos os jogos, ríamos, brincávamos, gozávamos com os adversários, as vezes zangávamo-nos, mas no fim, éramos todos felizes.

Lembrei-me depois da minha turma da 7ª classe, ainda na ex-Associação dos socorros mútuos. No sector masculino, a turma B já não foi tão bafejada pela sorte no que toca ao talento futebolístico, por isso, no campeonato do ano lectivo de 89/90 ficamos nos últimos lugares, embora me lembre do nosso esforçado guarda-redes, o Hermes, de Monte Café, cujas exibições impediram-nos de levar várias “cabazadas” e que mais tarde, tornou-se titular da equipa de futebol 5 de Belém. No sector feminino, à Alcinda, juntaram-se a Carla e a Joly, formando um trio de respeito que foi impedido de celebrar a vitória no campeonato pela batotice do professor de edução física, árbitro da final que jogamos com a 7ª C, a turma da qual ele era director. Desses tempos, lembro-me sobretudo que os dias de jogo eram também pretexto para as raparigas saírem de casa para os namoricos e, dos momentos de diversão que passávamos no “Vasco”, um “fundo” de um riacho que passava por trás da escola nova da Trindade, cujo nível relativamente raso da água não nos impedia de “dar cabeça fundo” com toda propriedade. No final dos jogos, era no “Vasco” que íamos festejar as vitorias e amargurar as derrotas e lá, adversários de ocasião transformavam-se todos em companheiros de brincadeiras e éramos todos felizes. Ah, lembrei-me também do “matraquilo” velho do senhor Ministro (era esse o nome do homem), em Uba-flôr, para onde muitas vezes transportávamos a saudável rivalidade inter-turmas em torneios improvisados. Uma “mão”, custava na altura 20 dobras. Bons tempos!

Lembrei-me também da minha turma da 8ª classe, já na “escola nova” e por incrível que pareça, passados quase 20 anos, ainda sei os nomes de quase todos os meus ex-colegas ex-professores da turma A. Sinal de que as memorias daqueles tempos continuam bem vivas na minha mente. Na altura éramos todos como uma família e cultivávamos valores que hoje em dia não passam de miragens no deserto de egoísmo e futilidades que se transformou a nossa sociedade. Também nesse ano lectivo de 90/91 o campeonato de futebol inter-turmas teve um sucesso retumbante, embora a nossa equipa feminina não tenha participado por falta de jogadoras (as nossas colegas na altura eram muito “finas” e estavam mais viradas para o clube de poesia criado pelo professor Chandinho) e a equipa masculina tenha sido eliminada na fase final. Ficamos em 3º lugar, se bem me recordo e como prova da marca indelével que esses momentos deixaram em mim (acredito que em todos os outros também), fica aqui, como puro exercício de memória, a constituição da nossa equipa na altura: Nelson Bixi-pô na baliza, Diallo e Agnaldo na defesa (os duplex, como lhes chamávamos), Nilton Garido e Adriano na frente, sem falar dos suplentes de luxo: Laureano, Maizí, Ailton, Gilberto e eu. Um verdadeiro “dream team”.

Com a passagem para a 9ª classe, tivemos que abandonar a nossa querida e pacata Trindade para irmos estudar no Liceu Nacional, na cidade Capital. Desse tempo, no ano lectivo de 91/92, lembrei-me primeiro do facto de alguns colegas terem desistido de continuar a estudar por falta de recursos dos seus pais para lhes pagar a deslocação diária à capital, que mesmo nos falecidos autocarros “ Scania”, ainda ficava caro. No que ao desporto escolar diz respeito, naquele ano, houve um campeonato de futebol 5 e de voleibol, mas apenas no sector masculino. Fomos eliminados logo na primeira volta, nas duas modalidades. Como escolhi o Futebol 5, não posso falar do que se passou no voleibol. No futebol 5, mesmo a grandisosidade do liceu não dispersou o entusiasmo dos alunos. A titulo informativo, fiquem a saber que a culpa da nossa derrota foi claramente o facto de não terem utilizado as “estrelas” da Trindade (eu e o Diallo) e também devido ao excesso de individualismo dos nossos melhores jogadores (senhores Braulio, Burindá e Botelho, a culpa foi vossa, “ouviram”?! Lol). No final do jogo, discutimos bastante, já que era ponto assente que tínhamos melhores jogadores que o adversário, ficamos uns dias amuados, mas depois passou. Aprendemos a lição e hoje continuamos grandes amigos. É essa, a última lembrança que tenho do desporto escolar em São Tomé e Príncipe, na sua vertente de competição.

Nesse remoer de memórias que fatalmente me fez visitar outros aspectos da minha adolescência, uma parte de mim desejou que o tempo voltasse atrás e que, para além das experiências inesquecíveis que a prática do desporto escolar me proporcionou, pudesse também reviver outras situações que hoje em dia, os alunos do secundário, infelizmente deixaram de vivenciar: As festas do 1º de Junho que eram comemoradas até à 7ª classe e onde mais importante do que a roupa e sapatos novos, era o convívio entre alunos e professores; Os “esbanjos” que assinalavam com pompa e circunstancia as lições nº 100 de cada disciplina; A inocência dos namoros de adolescente e os beijos roubados na hora de saída da escola; O companheirismo e a entreajuda entre os alunos, sempre presentes nas horas das provas trimestrais e que se estendiam às épocas dos exames, onde os mais aplicados, os que ficavam dispensados, faziam questão de ajudar os colegas com maior dificuldades nas horas de estudo, sem pedir nada em troca; O respeito e a admiração que nutríamos pelos professores e que eles faziam por merecer e por ultimo, os dias de trabalho cívico na escola. Sim, senti saudades dessa invenção socialista introduzida pelo MLSTP no nosso País. Senti saudades dos sábados que íamos capinar, lavar e pintar a nossa escola, a escola que nos ensinaram a amar e cuidar, a construir e a conservar.

Posto isso, creio que não restam dúvidas sobre o papel preponderante que o desporto escolar pode ter na vida dos nossos estudantes e na sua formação cívica. Não falo apenas do benefício que trás à saúde e da possibilidade de poder-se descobrir alguns talentos nessas competições, mas falo sobretudo do impacto que esse tipo de competição pode ter na vida social dos alunos e na formação do seu carácter. Falo do espírito de equipa, de união e de camaradagem que deve ser cultivado desde tenra idade; Falo do convívio e sociabilização que essa actividade promove entre os alunos, num ambiente diferente da sala de aulas e da possibilidade de poderem ocupar os tempos livres com uma actividade saudável e barata em vez de andarem na "má vida"; Falo da possibilidade deles aprenderem a compartilhar sucessos e insucessos e lutar por objectivos e sonhos colectivos e, falo também da necessidade de se incutir nos nossos jovens desportistas os valores do fair play e da competitividade saudável, para que deixem de cultivar pelos seus adversários, sentimentos como ódio, a inveja e “sede de sangue” que de uma forma geral, graça no desporto São-tomense e influencia o comportamento dos praticantes, dirigentes e adeptos. Por tudo isso, saúdo veementemente a ideia do Secretario da juventude e desporto em ressuscitar a pratica do desporto escolar e faço votos que ele consiga levar esse projecto à bom porto( como quem diz: Que haja dinheiro e vontade politica). É claro que me alegraria muito mais se fosse anunciada a reforma geral do nosso sistema de educação, mas isso são contas do outro rosário.