Ponto prévio: No texto anterior, falei da necessidade da renovação e rejuvenescimento da nossa classe política ser feita de forma sustentada e equilibrada, respeitando alguns critérios de selecção que nos garantam à partida, algum acréscimo de qualidade e a esperada evolução positiva do nosso cenário político com a introdução de novos (e mais bem preparados) actores políticos que possam fazer a diferença e romper com os maus costumes do passado. No fundo, explanei o meu ponto de vista sobre a forma que achava mais equilibrada e sustentada para que a ascensão da juventude no cenário político fosse mais profícua, quer para a própria juventude, quer para o País. Agora, irei mais fundo na análise dessa questão e, sob outra perspectiva, tentarei dar maior ênfase às dificuldade e aos entraves que muitas vezes alguns jovens, mesmo sendo competentes, qualificados e já com uma folha de serviço apreciável, encontram para singrar na cena política São-tomense, até porque, no primeiro texto, falei no abstracto e no geral, enquadrado num cenário de normalidade, que como sabemos nem sempre é o que se verifica na sociedade São-tomense.
“Nem sempre conseguimos construir o futuro para a nossa juventude, mas podemos construir a juventude para o futuro” – Franklin Roosevelt, ex-presidente dos E.U.A
Desde os primórdios da humanidade que o conflito inter-geracional é parte integrante e acutilante das sociedades humanas, manifestando-se em todos os sectores e actividades possíveis, variando a sua intensidade e visibilidade na proporção directa dos interesses que estejam em jogo. Nesse eterno conflito, normalmente os mais velhos encaram os jovens como uma ameaça aos seus domínios e utilizam todas as artimanhas para tentar impedir ou no mínimo, retardar ao máximo o alcançar das suas pretensões, o que leva a que muitas vezes a transição não seja feita de forma totalmente pacífica.
Em São Tomé e Príncipe, não é preciso fazer-se uma análise muito profunda à nossa sociedade para percebemos que é na política onde esse choque de gerações se manifesta em todo o seu esplendor, e nos dias de hoje, com mais intensidade do que nunca. Num lado, temos os anciões lá da tribo, serena e confortavelmente instalados na cubata do poder e relutantes em “largar o osso” por iniciativa própria e no outro, temos os jovens aspirantes, cada vez mais “olho aberto”, mais inconformados e impacientes, a exigirem por direito próprio, um lugar ao sol. Num lado, temos a experiencia, a maturidade e a casmurrice a dizerem constantemente que ainda têm muito a dar e que o seu prazo de validade ainda não expirou, reivindicando “o direito inviolável” à oportunidades consecutivas para continuar no poleiro, dizendo à juventude para ter calma, para crescer e aparecer, que a sua hora vai chegar (mas não dizem quando), e no outro lado, temos a irreverência, a impetuosidade e o fervor juvenil, que exige a renovação e clama por oportunidades para provar que já está preparada para dar um contributo frutuoso à causa e que pode fazer melhor do que os mais velhos. No meio de tudo isso, temos os outros membros da tribo, a maioria silenciosa, que ao fim de 35 anos de muitos sonhos e anseios adiados, começam também a manifestar sinais claros de alguma preferência por novos rostos, novas mentes e consequentemente, novas formas de se fazer política. Como sair então desse imbróglio?
Tal como acontece na natureza, nos casos daqueles animais que vivem em comunidade, submetidos à uma liderança bem identificada, sempre que um “mancebo” quiser por em causa a liderança do macho Alfa, tem que desafia-lo para um mano-a-mano em que o vencedor assume (ou reassume) automaticamente o lugar de líder até ao próximo duelo. Nesses casos, a iniciativa do duelo nunca parte do líder, e os aspirantes só avançam quando sentem que estão suficientemente preparados enfrentar o “chefe” com algumas hipóteses de sucesso. Era também assim que as coisas se resolviam entre nós, humanos, há alguns milénios atrás, antes de descobrirmos que podíamos usar melhor a “mona” e consequentemente, criar algumas regras para tornar a nossa vida em comunidade mais civilizada.
Trouxe esse exemplo à baila para, fazendo as naturais adaptações para a nossa realidade política, reforçar o meu ponto de vista sobre a necessidade de ser os “mancebos” a terem uma atitude proactiva nesse “combate” e também focar a necessidade de estarem minimamente preparados para enfrentar o poder instituído com algumas hipóteses de sucesso, caso contrário, perecerão no campo de batalha ou, se por um golpe de sorte, forem bem sucedidos, o seu reinado não será sustentado em alicerces profundos, logo, não terá os efeitos esperados e será efémero.
Não foi por acaso que escolhi uma célebre frase do Roosevelt sobre a juventude para iniciar o meu texto, a verdade é que os nossos dirigentes têm se esquecido de preparar a juventude para o futuro, sobretudo em termos de liderança política, talvez por esquecimento, talvez por desleixo ou talvez por conveniência, de modo a mantê-la impreparada, acomodada e eternamente dependente deles, para não ousarem um dia rebelarem-se e fazer-lhes frente. Felizmente para os jovens, as recentes eleições colocaram definitivamente o assunto da renovação na agenda de todos os partidos políticos São-tomenses e de repente, algo que já devia ser debatido há muito tempo, de forma equilibrada e concertada, de modo a se fazer uma transição gradual onde seria de todo interessante mesclar a experiencia dos mais velhos com alguma imaturidade dos mais jovens, ganha contornos de urgência, e o partido que não for suficientemente esperto para apanhar o comboio, mesmo já em andamento, corre o sério risco de ficar para trás, ou de sofrer uma debandada sem precedentes dos seus militantes mais novos. Esperemos pois, as cenas dos próximos capítulos para sabermos quem realmente escutou o sussurro da maioria silenciosa.
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
AH, PORQUE SOU JOVEM E TAL...
“ A juventude é inconformada, irreverente e até incómoda, mas é precisamente isso que se espera dela.” - Francisco Sá Carneiro, ex-primeiro-ministro Português.
Nunca em São Tomé e Príncipe as palavras “juventude” e “renovação” estiveram tanto em voga como nos dias de hoje e tudo graças aos resultados surpreendentes das eleições autárquicas e legislativas que, segundo o senso colectivo, consagraram o ADI, sobretudo por causa da tão propalada renovação dos candidatos que apresentou ao eleitorado e penalizaram os outros partidos, sobretudo, afirma também o senso colectivo, por causa dos ditos “dinossauros”, gastos, cansados, ultrapassados e avessos à renovação das suas estruturas de direcção, que, mais uma vez, contrariando até, as expectativas dos seus militantes, decidiram submeter-se ao veredicto popular. No que me diz respeito, até acho que esse aspecto não foi assim tão relevante no desfecho dessas eleições, já que, por exemplo, da parte do ADI, o partido vencedor, a estrutura dirigente que saiu do ultimo congresso é praticamente a mesma dos últimos anos, com a diferença de ter havido alguma injecção de “sangue novo” na comissão politica e agora, com a provável nomeação de um jovem para a vaga do “adiado” Secretário-geral, já que ganharam as eleições e é conveniente assumir claramente a tal aposta na juventude. Como uma renovação pressupõe a saída de alguns, para a entrada de outros, creio que em última análise não podemos aplicar o adjectivo “renovado” ao ADI, que se limitou a contratar (e o termo “contratar” não é aqui utilizado de forma inocente) algumas jovens promessas da sociedade civil e de outros partidos para, estrategicamente se apresentar ao eleitorado de cara lavada chamando a si a personificação legítima da mudança. Não querendo fazer juízos de valor sobre quem quer que seja, sou obrigado a reconhecer que essa táctica até teve algum impacto, sobretudo junto da população urbana. Fora isso, como sempre, as duas campanhas do ADI foram centradas e centralizadas na figura do seu presidente e não me lembro de ver algum jovem a discursar nos comícios ou a fazer companhia ao Patrice Trovoada nos seus cartazes de propaganda política, com duas ou três honrosas excepções que ele fazia questão de mostrar ao povo nas passeatas, nos tempos de antena e nos comícios, qual “contratações galácticas” do ultimo defeso. Duvido pois, que a maioria da população tenha escolhido o ADI apenas por causa da dita renovação do partido, até porque, como é prática comum em São Tomé e Príncipe, a esmagadora maioria dos candidatos às Câmaras distritais e à Assembleia Nacional apenas são conhecidos pelos iluminados que se dão ao trabalho de consultar a lista publicada pelo Supremo Tribunal de Justiça. Quais foram então os verdadeiros motivos da vitoria do ADI? Isso são contas do outro rosário, a que me dedicarei numa dessas tardes de ócio. Retornemos então à questão da “renovação” e “juventude”.
Em condições normais, há três vias de um jovem atingir uma posição de destaque dentro de uma instituição, grupo ou mesmo estrutura familiar: Em primeiro lugar, pela conquista própria, em resultado da demonstração de competências e qualidades que marcam a diferença e o levam a uma promoção natural, inquestionável e sustentada dentro do grupo ou instituição; Em segundo lugar, através do beneplácito ou anuência do poder instituído, ou seja, com a devida “autorização” ou sugestão dos mais velhos, em resultado de uma necessidade momentânea, por questões de conveniência/interesse ou até pela imposição de preenchimento de cotas obrigatórias; Por ultimo, através da selecção natural, que “obriga” a substituição dos membros mais antigos por questões de envelhecimento avançado ou falecimento. Posso também considerar uma quarta via, em que os três factores acima elencados são combinados em doses variadas.
Naturalmente que na pratica as coisas não são assim tão lineares e as vezes há pormenores imprevistos e imprevisíveis que fazem alterar a ordem dos factores com influencia no resultado da equação e claro, as tais excepções que confirmam a regra. De qualquer forma, sou daqueles que defendem que apenas pela primeira via se tem alguma garantia de sucesso e afirmação sustentável dos jovens, e consequentemente da instituição que servem, já que, com raríssimas excepções, apenas pela primeira via se consegue dar o verdadeiro valor ao mérito e premiar a competência. No caso especifico do panorama político São-tomense, em que a promoção dos jovens no seio dos partidos políticos pode ter reflexos na governação do País, é pois, recomendável alguma prudência e responsabilidade na concretização do pressuposto da renovação. Porque se podemos nos dar ao luxo de arriscar irresponsavelmente na escolha e promoção de jovens quadros nas nossas empresas ou instituições privadas, com a desculpa do empreendorismo, revitalização ou seja lá o que for, assumindo os riscos inerentes a essa escolha e acatando as consequências negativas, caso as haja, o mesmo não devemos fazer, quando estão em causa os interesses públicos e os destinos de uma nação.
Posto isto, tenho que concordar com o autor da frase de abertura desse texto e dizer que a juventude tem que ser sim, inconformada, irreverente e até incómoda, se necessário, mas também tem que ser responsável, ponderada, convicta e paciente, acrescento eu. Principalmente aquela juventude com queda para a politica, a quem brevemente será entregue (ou conquistarão) as rédeas do destino de São Tomé e Príncipe. Inconformada na busca incessante de oportunidades para provar o seu valor e dar mostras de competências para assumir determinadas responsabilidades, mas responsável, para ter a noção das suas limitações e saber dizer “ainda não” sempre que a missão, apesar de aliciante, se manifestar demasiadamente complexa; Irreverente na forma de produzir novas ideias e novos conceitos, ou mesmo na procura de novas formas de abordar os conceitos e as ideias antigas, mas ponderada, para não cair na tentação de radicalizar as suas acções e excluir á pressa, a experiencia dos mais velhos, onde apesar de tudo, ainda se pode ir beber algumas coisas úteis; Incómoda na forma de se fazer ouvir e de exigir algum espaço para crescer e dar também a sua contribuição à causa, mas paciente, para não queimar as etapas necessárias para uma afirmação plena e sustentada no cenário político; Por ultimo, mas não menos importante, a juventude tem que ser convicta na defesa dos seus ideais, na procura de uma nova forma de pensar a politica e o País e não deixar-se enganar por truta e meia e contribuir assim, para a degradação de valores que hoje se verifica na nossa sociedade, em geral, e na politica, em particular, de forma a podermos todos esperar coisas bonitas e positivas daqueles que um dia já foram apelidados de “homens do amanha”.
Infelizmente, no estado actual das coisas, atendendo a ausência de convicções fortes e de objectivos comuns, e sobretudo, aos ziguezagues e reviravoltas inimagináveis na forma de pensar e de agir de grande parte dos aprendizes de políticos da nossa geração, acredito cada vez menos na possibilidade de sermos nós a mudar o rumo das coisas. Não creio pois, que se possa esperar coisas positivas de jovens que são colocados em lugares de destaque dos partidos, atendendo apenas à sua data de nascimento como critério de selecção, em resposta demagógica a um pedido de renovação vindo do eleitorado. Não creio também que se possa esperar coisas positivas de jovens que, sob o signo de uma ambição desmedida e sede pelo poder, forcem a sua escalada nas estruturas internas dos partidos políticos apenas porque são jovens e formados, negligenciando outros factores importantes, como a inexperiência, a imaturidade política e as vezes, uma incompetência preocupante que se nota à vista desarmada. E por último, não creio naturalmente que também se possa esperar coisas positivas de partidos políticos que se negam a renovar-se e a rejuvenescer-se de forma sustentada e equilibrada, e que apenas escancaram as janelas de oportunidades aos jovens, em caso de necessidade estratégica ou por desaparecimento físico de um dos membros com lugar cativo. Pelo bem de São Tomé e Príncipe, espero que o tempo, quiçá os contratempos, me mostrem que afinal estou errado e que ando aqui a debitar reflexões estúpidas, sem fundamentos nenhuns. Era bonito, não era?!
Nunca em São Tomé e Príncipe as palavras “juventude” e “renovação” estiveram tanto em voga como nos dias de hoje e tudo graças aos resultados surpreendentes das eleições autárquicas e legislativas que, segundo o senso colectivo, consagraram o ADI, sobretudo por causa da tão propalada renovação dos candidatos que apresentou ao eleitorado e penalizaram os outros partidos, sobretudo, afirma também o senso colectivo, por causa dos ditos “dinossauros”, gastos, cansados, ultrapassados e avessos à renovação das suas estruturas de direcção, que, mais uma vez, contrariando até, as expectativas dos seus militantes, decidiram submeter-se ao veredicto popular. No que me diz respeito, até acho que esse aspecto não foi assim tão relevante no desfecho dessas eleições, já que, por exemplo, da parte do ADI, o partido vencedor, a estrutura dirigente que saiu do ultimo congresso é praticamente a mesma dos últimos anos, com a diferença de ter havido alguma injecção de “sangue novo” na comissão politica e agora, com a provável nomeação de um jovem para a vaga do “adiado” Secretário-geral, já que ganharam as eleições e é conveniente assumir claramente a tal aposta na juventude. Como uma renovação pressupõe a saída de alguns, para a entrada de outros, creio que em última análise não podemos aplicar o adjectivo “renovado” ao ADI, que se limitou a contratar (e o termo “contratar” não é aqui utilizado de forma inocente) algumas jovens promessas da sociedade civil e de outros partidos para, estrategicamente se apresentar ao eleitorado de cara lavada chamando a si a personificação legítima da mudança. Não querendo fazer juízos de valor sobre quem quer que seja, sou obrigado a reconhecer que essa táctica até teve algum impacto, sobretudo junto da população urbana. Fora isso, como sempre, as duas campanhas do ADI foram centradas e centralizadas na figura do seu presidente e não me lembro de ver algum jovem a discursar nos comícios ou a fazer companhia ao Patrice Trovoada nos seus cartazes de propaganda política, com duas ou três honrosas excepções que ele fazia questão de mostrar ao povo nas passeatas, nos tempos de antena e nos comícios, qual “contratações galácticas” do ultimo defeso. Duvido pois, que a maioria da população tenha escolhido o ADI apenas por causa da dita renovação do partido, até porque, como é prática comum em São Tomé e Príncipe, a esmagadora maioria dos candidatos às Câmaras distritais e à Assembleia Nacional apenas são conhecidos pelos iluminados que se dão ao trabalho de consultar a lista publicada pelo Supremo Tribunal de Justiça. Quais foram então os verdadeiros motivos da vitoria do ADI? Isso são contas do outro rosário, a que me dedicarei numa dessas tardes de ócio. Retornemos então à questão da “renovação” e “juventude”.
Em condições normais, há três vias de um jovem atingir uma posição de destaque dentro de uma instituição, grupo ou mesmo estrutura familiar: Em primeiro lugar, pela conquista própria, em resultado da demonstração de competências e qualidades que marcam a diferença e o levam a uma promoção natural, inquestionável e sustentada dentro do grupo ou instituição; Em segundo lugar, através do beneplácito ou anuência do poder instituído, ou seja, com a devida “autorização” ou sugestão dos mais velhos, em resultado de uma necessidade momentânea, por questões de conveniência/interesse ou até pela imposição de preenchimento de cotas obrigatórias; Por ultimo, através da selecção natural, que “obriga” a substituição dos membros mais antigos por questões de envelhecimento avançado ou falecimento. Posso também considerar uma quarta via, em que os três factores acima elencados são combinados em doses variadas.
Naturalmente que na pratica as coisas não são assim tão lineares e as vezes há pormenores imprevistos e imprevisíveis que fazem alterar a ordem dos factores com influencia no resultado da equação e claro, as tais excepções que confirmam a regra. De qualquer forma, sou daqueles que defendem que apenas pela primeira via se tem alguma garantia de sucesso e afirmação sustentável dos jovens, e consequentemente da instituição que servem, já que, com raríssimas excepções, apenas pela primeira via se consegue dar o verdadeiro valor ao mérito e premiar a competência. No caso especifico do panorama político São-tomense, em que a promoção dos jovens no seio dos partidos políticos pode ter reflexos na governação do País, é pois, recomendável alguma prudência e responsabilidade na concretização do pressuposto da renovação. Porque se podemos nos dar ao luxo de arriscar irresponsavelmente na escolha e promoção de jovens quadros nas nossas empresas ou instituições privadas, com a desculpa do empreendorismo, revitalização ou seja lá o que for, assumindo os riscos inerentes a essa escolha e acatando as consequências negativas, caso as haja, o mesmo não devemos fazer, quando estão em causa os interesses públicos e os destinos de uma nação.
Posto isto, tenho que concordar com o autor da frase de abertura desse texto e dizer que a juventude tem que ser sim, inconformada, irreverente e até incómoda, se necessário, mas também tem que ser responsável, ponderada, convicta e paciente, acrescento eu. Principalmente aquela juventude com queda para a politica, a quem brevemente será entregue (ou conquistarão) as rédeas do destino de São Tomé e Príncipe. Inconformada na busca incessante de oportunidades para provar o seu valor e dar mostras de competências para assumir determinadas responsabilidades, mas responsável, para ter a noção das suas limitações e saber dizer “ainda não” sempre que a missão, apesar de aliciante, se manifestar demasiadamente complexa; Irreverente na forma de produzir novas ideias e novos conceitos, ou mesmo na procura de novas formas de abordar os conceitos e as ideias antigas, mas ponderada, para não cair na tentação de radicalizar as suas acções e excluir á pressa, a experiencia dos mais velhos, onde apesar de tudo, ainda se pode ir beber algumas coisas úteis; Incómoda na forma de se fazer ouvir e de exigir algum espaço para crescer e dar também a sua contribuição à causa, mas paciente, para não queimar as etapas necessárias para uma afirmação plena e sustentada no cenário político; Por ultimo, mas não menos importante, a juventude tem que ser convicta na defesa dos seus ideais, na procura de uma nova forma de pensar a politica e o País e não deixar-se enganar por truta e meia e contribuir assim, para a degradação de valores que hoje se verifica na nossa sociedade, em geral, e na politica, em particular, de forma a podermos todos esperar coisas bonitas e positivas daqueles que um dia já foram apelidados de “homens do amanha”.
Infelizmente, no estado actual das coisas, atendendo a ausência de convicções fortes e de objectivos comuns, e sobretudo, aos ziguezagues e reviravoltas inimagináveis na forma de pensar e de agir de grande parte dos aprendizes de políticos da nossa geração, acredito cada vez menos na possibilidade de sermos nós a mudar o rumo das coisas. Não creio pois, que se possa esperar coisas positivas de jovens que são colocados em lugares de destaque dos partidos, atendendo apenas à sua data de nascimento como critério de selecção, em resposta demagógica a um pedido de renovação vindo do eleitorado. Não creio também que se possa esperar coisas positivas de jovens que, sob o signo de uma ambição desmedida e sede pelo poder, forcem a sua escalada nas estruturas internas dos partidos políticos apenas porque são jovens e formados, negligenciando outros factores importantes, como a inexperiência, a imaturidade política e as vezes, uma incompetência preocupante que se nota à vista desarmada. E por último, não creio naturalmente que também se possa esperar coisas positivas de partidos políticos que se negam a renovar-se e a rejuvenescer-se de forma sustentada e equilibrada, e que apenas escancaram as janelas de oportunidades aos jovens, em caso de necessidade estratégica ou por desaparecimento físico de um dos membros com lugar cativo. Pelo bem de São Tomé e Príncipe, espero que o tempo, quiçá os contratempos, me mostrem que afinal estou errado e que ando aqui a debitar reflexões estúpidas, sem fundamentos nenhuns. Era bonito, não era?!
domingo, 20 de junho de 2010
CAMPANHA ELEITORAL OU GUERRA CIVIL?!
Há algumas semanas atrás, o Comandante da Policia Nacional de STP, afirmou, aquando da entrega de novas armas ao comando nacional, que a polícia encontrava-se agora melhor preparada para enfrentar de forma implacável o período conturbado das eleições que se avizinham. Esta semana, foi o Comandante do exército a fazer declaração semelhante, pedindo uma maior neutralidade dos “tropas” no processo eleitoral e redobrada atenção, para o caso de serem chamados a intervir. Juntando à isso, o “clima” pesado de rivalidades exacerbadas que já se sente no ar em vários pontos do País e as declarações incendiarias de alguns dirigentes políticos, que vêm por em causa a legalidade e a justeza do processo eleitoral, antes mesmo dele acontecer, lançando o mais lenha para a fogueira, duas questões pertinentes ganham relevo: Será que conseguimos desvirtuar de tal forma o real papel das campanhas eleitorais no nosso processo democrático, ao ponto de ser necessário colocar a polícia nacional e o exército em alerta máximo?! Afinal, estamos a nos preparar para uma campanha eleitoral ou para uma guerra civil?!
É claro que gostaria de acreditar que os comandantes das forças militares e de segurança pública estão a exagerar nas precauções ou que andam um pouco desenquadrados da nossa realidade, assim como todos os outros, que a nível público ou privado têm manifestado essa mesma preocupação, mas, a realidade, a sempre dura realidade, começa a mostrar-nos que o Pachire e o Vicente podem afinal, ter grande razão.
Infelizmente, já há algum tempo que é prática comum em São Tomé e Príncipe confundir-se “adversários políticos” com “ inimigos de morte” e numa sociedade tão pequena e politizada como a nossa, a falta de discernimento na compreensão desses dois conceitos tão diferentes, tem contribuído de forma decisiva para a deteorização da nossa jovem democracia e para o extremar das relações entre os membros da nossa classe política, o que fatalmente condiciona o comportamento dos militantes e simpatizantes dos vários partidos políticos, com consequências graves, a nível social e não só. Esse clima de frequente tensão nas alturas das eleições é o expoente máximo desse paradigma.
Infelizmente, os São-tomenses ainda não compreenderam que em democracia, as pessoas têm a liberdade para escolher e apoiar os candidatos e os partidos que bem entenderem, pelos motivos que bem lhes apetecer. Em democracia, assim como na vida, é natural as pessoas alimentarem convicções e ideais diferentes e é muito normal, as pessoas defenderem teses e projectos diferentes, ou até, defenderem de forma diferente, as mesmas ideias e os mesmos projectos, sem que para isso, tenhamos que ser inimigos de morte, sem que para isso, tenhamos que ser incivilizados e violentos na afirmação do nosso ponto de vista, porque em última análise, pelo menos em teoria, há um objectivo comum que devia nos unir nesse mar de diferenças pseudo-ideológicas.
Infelizmente, os São-tomenses ainda não se deram conta que a politica, além de ser um “mal” necessário, pode em certa medida, ser uma coisa bonita e proveitosa, onde até a demagogia e o populismo, em doses comedidas, constituem-se como ingredientes acutilantes do próprio processo; Onde o diálogo e a tolerância devem ser as ferramentas mais importantes para se construir consensos e desbravar as diferenças, e onde a violência, o jogo sujo e a selvajaria não podem em hipóteses algumas, ser promovidas, ou sequer, toleradas.
Infelizmente, os São-tomenses ainda não perceberam que, num País com as particularidades do nosso, onde todos somos conhecidos, amigos ou familiares de todos, onde grande parte do eleitorado tem a hipótese de estar frente-a-frente com os candidatos dos seus distritos, em reuniões e manifestações políticas, na época da campanha eleitoral e expor os seus anseios, falar dos seus problemas, ou até, passar-lhes reprimendas e gritar “quidalé”, a nossa democracia podia e devia ter contornos menos problemáticos e mais profícuos, o que por si só, tornaria a nossa politica mais bonita e estimulante.
Infelizmente, os São-tomenses ainda não se aperceberam que as eleições não são uma questão de vida ou morte e que as vitorias e derrotas, e a própria alternância do poder, são traços estruturantes de uma democracia saudável. Não há pois, que tentar vencer a qualquer preço, ludibriando batoteiramente os adversários e viciando as regras do jogo. Não há pois, que promover desentendimentos inúteis e rivalidades extremas entre “irmãos”, abrindo feridas profundas que demoram a sarar, nos casos em que saram.
O que ganham, afinal, os nossos políticos quando no alto dos seus palanques, limitam-se a apelidar todos os seus adversários de ladrões e corruptos, de forma leviana, quase sempre sem provas concretas, atiçando e inflamando o ódio popular contra a própria classe?! O que ganham os nossos políticos quando patrocinam os habituais panfletos anónimos que são largados na calada da noite, quase sempre com informações falsas, caluniando de forma irresponsável os seus adversários e manchando de forma indelével a sua reputação?! O que ganham, afinal, os nossos partidos políticos quando induzem ou mandam os seus militantes rasgarem cartazes de propaganda dos seus adversários?! O que ganham os nossos partidos quando instruem os seus militantes a invadirem e acabarem com reuniões dos seus adversários nas suas zonas de residência?! Ou até quando lhes pedem para nem sequer admitirem que os adversários “entrem” nas suas “zonas”para fazer campanha, chegando mesmo ao ponto de correrem com eles à pedrada?! - Esquecem-se que há pessoas maldosas que se aproveitam dessas situações para acordarem ódios antigos ou resolverem de forma menos ortodoxa, desentendimentos mal explicados no passado, criando uma espiral de violência que depois, sob o signo da retaliação, acaba por gerar mais violência ainda. Por fim, o que ganham os nossos políticos ao lançarem constantemente suspeitas de fraude sobre os nossos escrutínios eleitorais, demonstrando um desrespeito arrogante pela vontade soberana do povo e descredibilizando um processo, no qual, eles próprios são parte activa?!
Felizmente, tal como na nossa bisca 61, baralhamos e voltamos a dar as cartas, sempre que descobrimos que o jogo está “remado”, acredito que ainda vamos a tempo de dar a volta por cima e fazer desaparecer o espectro da “eminente convulsão social” sempre presente na s alturas da campanhas eleitorais em São Tomé e Príncipe. Precisamos apenas que haja vontade política, coragem para assumir a ruptura definitiva com o passado, sem estar a espera que os outros o façam primeiro e bons exemplos que venham de cima, porque como dizia o outro:”Dar o exemplo não é a melhor forma de influenciar os outros, é a única!”. Porque em ultima analise, independentemente da difícil situação económica e social do País e dos problemas gravíssimos que ainda temos para serem resolvidos, esse tipo de tensão popular na altura das eleições, esse ódio visceral dos eleitores contra os políticos e partidos que não são da sua escolha, são causados e incentivados pelos próprios políticos, que se aproveitam de qualquer situação de insatisfação popular para em primeira instancia, tirar dividendos políticos, “queimar” os adversários e só depois, em raras situações, dar um contributo positivo para a resolução desses problemas.
Custa assim tanto encontrarmos uma nova forma, mais positiva e frutuosa de pensar a nossa politica e o nosso País?! Custa assim tanto enterrarmos o machado de guerra e aprendermos a aceitar e respeitar as opções de cada um, dentro da diferença e diversidade politica que hoje caracteriza a nossa sociedade?! Custa assim tanto debatermos e divergirmos nas nossas ideias e convicções, sem criar rancores e inimizades?!
E aos políticos em particular, custa assim tanto aproveitar o período de campanha eleitoral para apresentar projectos, debater ideias e apontar um rumo ao País, em vez de se perderem nos ataques pessoais e conversas de beira de estrada, desprovidas de qualquer substância útil?!
Custa assim tanto instruir os militantes para que abandonem o habitual espírito tendencialmente belicista e encarem esse processo com serenidade, calma, tolerância e o necessário respeito pelos adversários?!
Custa assim tanto, transformar esse período de campanha eleitoral num “leguelá” colectivo, animado e colorido, aproveitando até a possibilidade de se comer, beber, dançar e assistir a concertos de graça?!
Custa assim tanto, em caso de derrota, aceitar “à primeira” os resultados das eleições e felicitar os vencedores, como aconselham os bons costumes democráticos e não estar constantemente a incendiar as hostes dos militantes com acusações de fraude e batota?!
Talvez até custe ou talvez a coisa já nem tenha remédio… E eu aqui armado em optimista. Que ingenuidade a minha!
É claro que gostaria de acreditar que os comandantes das forças militares e de segurança pública estão a exagerar nas precauções ou que andam um pouco desenquadrados da nossa realidade, assim como todos os outros, que a nível público ou privado têm manifestado essa mesma preocupação, mas, a realidade, a sempre dura realidade, começa a mostrar-nos que o Pachire e o Vicente podem afinal, ter grande razão.
Infelizmente, já há algum tempo que é prática comum em São Tomé e Príncipe confundir-se “adversários políticos” com “ inimigos de morte” e numa sociedade tão pequena e politizada como a nossa, a falta de discernimento na compreensão desses dois conceitos tão diferentes, tem contribuído de forma decisiva para a deteorização da nossa jovem democracia e para o extremar das relações entre os membros da nossa classe política, o que fatalmente condiciona o comportamento dos militantes e simpatizantes dos vários partidos políticos, com consequências graves, a nível social e não só. Esse clima de frequente tensão nas alturas das eleições é o expoente máximo desse paradigma.
Infelizmente, os São-tomenses ainda não compreenderam que em democracia, as pessoas têm a liberdade para escolher e apoiar os candidatos e os partidos que bem entenderem, pelos motivos que bem lhes apetecer. Em democracia, assim como na vida, é natural as pessoas alimentarem convicções e ideais diferentes e é muito normal, as pessoas defenderem teses e projectos diferentes, ou até, defenderem de forma diferente, as mesmas ideias e os mesmos projectos, sem que para isso, tenhamos que ser inimigos de morte, sem que para isso, tenhamos que ser incivilizados e violentos na afirmação do nosso ponto de vista, porque em última análise, pelo menos em teoria, há um objectivo comum que devia nos unir nesse mar de diferenças pseudo-ideológicas.
Infelizmente, os São-tomenses ainda não se deram conta que a politica, além de ser um “mal” necessário, pode em certa medida, ser uma coisa bonita e proveitosa, onde até a demagogia e o populismo, em doses comedidas, constituem-se como ingredientes acutilantes do próprio processo; Onde o diálogo e a tolerância devem ser as ferramentas mais importantes para se construir consensos e desbravar as diferenças, e onde a violência, o jogo sujo e a selvajaria não podem em hipóteses algumas, ser promovidas, ou sequer, toleradas.
Infelizmente, os São-tomenses ainda não perceberam que, num País com as particularidades do nosso, onde todos somos conhecidos, amigos ou familiares de todos, onde grande parte do eleitorado tem a hipótese de estar frente-a-frente com os candidatos dos seus distritos, em reuniões e manifestações políticas, na época da campanha eleitoral e expor os seus anseios, falar dos seus problemas, ou até, passar-lhes reprimendas e gritar “quidalé”, a nossa democracia podia e devia ter contornos menos problemáticos e mais profícuos, o que por si só, tornaria a nossa politica mais bonita e estimulante.
Infelizmente, os São-tomenses ainda não se aperceberam que as eleições não são uma questão de vida ou morte e que as vitorias e derrotas, e a própria alternância do poder, são traços estruturantes de uma democracia saudável. Não há pois, que tentar vencer a qualquer preço, ludibriando batoteiramente os adversários e viciando as regras do jogo. Não há pois, que promover desentendimentos inúteis e rivalidades extremas entre “irmãos”, abrindo feridas profundas que demoram a sarar, nos casos em que saram.
O que ganham, afinal, os nossos políticos quando no alto dos seus palanques, limitam-se a apelidar todos os seus adversários de ladrões e corruptos, de forma leviana, quase sempre sem provas concretas, atiçando e inflamando o ódio popular contra a própria classe?! O que ganham os nossos políticos quando patrocinam os habituais panfletos anónimos que são largados na calada da noite, quase sempre com informações falsas, caluniando de forma irresponsável os seus adversários e manchando de forma indelével a sua reputação?! O que ganham, afinal, os nossos partidos políticos quando induzem ou mandam os seus militantes rasgarem cartazes de propaganda dos seus adversários?! O que ganham os nossos partidos quando instruem os seus militantes a invadirem e acabarem com reuniões dos seus adversários nas suas zonas de residência?! Ou até quando lhes pedem para nem sequer admitirem que os adversários “entrem” nas suas “zonas”para fazer campanha, chegando mesmo ao ponto de correrem com eles à pedrada?! - Esquecem-se que há pessoas maldosas que se aproveitam dessas situações para acordarem ódios antigos ou resolverem de forma menos ortodoxa, desentendimentos mal explicados no passado, criando uma espiral de violência que depois, sob o signo da retaliação, acaba por gerar mais violência ainda. Por fim, o que ganham os nossos políticos ao lançarem constantemente suspeitas de fraude sobre os nossos escrutínios eleitorais, demonstrando um desrespeito arrogante pela vontade soberana do povo e descredibilizando um processo, no qual, eles próprios são parte activa?!
Felizmente, tal como na nossa bisca 61, baralhamos e voltamos a dar as cartas, sempre que descobrimos que o jogo está “remado”, acredito que ainda vamos a tempo de dar a volta por cima e fazer desaparecer o espectro da “eminente convulsão social” sempre presente na s alturas da campanhas eleitorais em São Tomé e Príncipe. Precisamos apenas que haja vontade política, coragem para assumir a ruptura definitiva com o passado, sem estar a espera que os outros o façam primeiro e bons exemplos que venham de cima, porque como dizia o outro:”Dar o exemplo não é a melhor forma de influenciar os outros, é a única!”. Porque em ultima analise, independentemente da difícil situação económica e social do País e dos problemas gravíssimos que ainda temos para serem resolvidos, esse tipo de tensão popular na altura das eleições, esse ódio visceral dos eleitores contra os políticos e partidos que não são da sua escolha, são causados e incentivados pelos próprios políticos, que se aproveitam de qualquer situação de insatisfação popular para em primeira instancia, tirar dividendos políticos, “queimar” os adversários e só depois, em raras situações, dar um contributo positivo para a resolução desses problemas.
Custa assim tanto encontrarmos uma nova forma, mais positiva e frutuosa de pensar a nossa politica e o nosso País?! Custa assim tanto enterrarmos o machado de guerra e aprendermos a aceitar e respeitar as opções de cada um, dentro da diferença e diversidade politica que hoje caracteriza a nossa sociedade?! Custa assim tanto debatermos e divergirmos nas nossas ideias e convicções, sem criar rancores e inimizades?!
E aos políticos em particular, custa assim tanto aproveitar o período de campanha eleitoral para apresentar projectos, debater ideias e apontar um rumo ao País, em vez de se perderem nos ataques pessoais e conversas de beira de estrada, desprovidas de qualquer substância útil?!
Custa assim tanto instruir os militantes para que abandonem o habitual espírito tendencialmente belicista e encarem esse processo com serenidade, calma, tolerância e o necessário respeito pelos adversários?!
Custa assim tanto, transformar esse período de campanha eleitoral num “leguelá” colectivo, animado e colorido, aproveitando até a possibilidade de se comer, beber, dançar e assistir a concertos de graça?!
Custa assim tanto, em caso de derrota, aceitar “à primeira” os resultados das eleições e felicitar os vencedores, como aconselham os bons costumes democráticos e não estar constantemente a incendiar as hostes dos militantes com acusações de fraude e batota?!
Talvez até custe ou talvez a coisa já nem tenha remédio… E eu aqui armado em optimista. Que ingenuidade a minha!
segunda-feira, 14 de junho de 2010
AFINAL, O MUNDIAL É MESMO EM ÁFRICA!
Depois de 18 edições, 80 anos de existência e depois de se ter realizado 10 vezes na Europa, 4 vezes na América do sul, 3 vezes na América do norte e 1 vez na Ásia, o segundo maior evento desportivo do mundo acontece esse ano em África. Depois de séculos de sofrimento e privações, de décadas de luta árdua pela conquista de direitos básicos que outros povos têm como garantidos há muito tempo, uma das maiores conquistas dos tempos modernos e um dos sonhos colectivos mais entusiasmantes dos africanos, desde a conquista das independências dos nossos países, começou a materializar-se no passado dia 11: O campeonato do mundo de futebol chegou finalmente à África, à nossa África. Apesar de ser a África do sul o país a ter o privilégio e o mérito de sediar o mundial de futebol, creio não estar a exagerar ao afirmar que, pela primeira vez na história, um continente inteiro sente e vive o mundial como seu. Este é pois, o mundial de todos nós, africanos!
Os outros membros da FIFA, os não africanos, quiçá imbuídos ainda num espírito neo-colonialista, desde sempre torceram o nariz a essa conquista. Os jornalistas ocidentais, quais profetas da desgraça, criticaram logo a decisão da FIFA e traçaram os piores cenários de insucesso, exaltando sempre os atrasos nas obras, as convulsões sociais, as dificuldades de segurança e tudo mais que podiam agarrar para tentar convencer o mundo que tinha sido um erro atribuir-se à um pais africano a responsabilidade de organizar tamanho evento. Disseram aos seus conterrâneos para não viajarem para a África do sul; alertaram-nos de forma doentia para os inúmeros perigos que estariam a sua espera; criaram gabinetes de crise para emitirem documentos em tempo recorde, prevendo que seriam todos assaltados assim que pisassem o solo sul-africano e em alguns casos, destacaram os seus próprios seguranças para proteger os seus cidadãos e atletas, já que não depositam confiança mínima nas forças policiais lá do gueto. Ainda hoje, já com o campeonato a decorrer, cada assalto que acontece, cada falha logística que se verifica, cada doente de com sida que morre, cada sem-abrigo que se encontra, cada desempregado que se descobre é logo noticia de abertura de telejornal e manchete de jornal, para mostrarem ao resto do mundo que afinal tinham razão, que os selvagens, analfabetos, corruptos e polígamos africanos não podiam nunca ter o direito de realizar um evento de escala planetária, como se esses fossem problemas exclusivos da África do sul, como se não houvesse também desemprego na Europa, como se não houvesse também crime nas Américas ou como se não se morresse também de fome e de sida na Ásia. Seria bonito se assim não fosse, mas infelizmente, essas chagas sociais são, também elas, de escala planetária.
Afinal, por obra e graça de Deus, os estádios ficaram prontos, os aeroportos, os hotéis, as estradas, a segurança e toda a logística acessória também está a funcionar dentro dos parâmetros razoáveis e o primeiro mundial em solo africano está a acontecer. Tem havido algumas falhas de organização?! Sim! Tem acontecido algumas situações complicadas a nível de segurança?! Sim! Mas se até hoje ninguém conseguiu organizar um mundial perfeito, por que carga de água se exige isso da África do sul?!
A cerimónia de abertura foi bonita, majestosa e imponente, digna de um mundial de futebol e das melhores cerimónias de abertura que pude assistir até hoje (a melhor, para mim, foi a dos jogos olímpicos de Pequim em 2008) e não pude deixar de emocionar-me quando o Jacob Zuma declarou oficialmente o inicio do mundial, de mãos dadas com o Joseph Blatter, esse irresponsável e teimoso presidente de FIFA, que a par do próprio presidente da África do sul e do Mandela, foi um dos grandes obreiros dessa conquista que enche de orgulho todos os africanos. Disseram que o homem era louco por acreditar na competência e dedicação dos africanos; disseram que a decisão de levar o mundial à África escondia uma agenda política secreta, quiçá uma rede de corrupção e jogos de interesse e até definiram vários países suplentes que estariam de prontidão para receber o mundial em ultima hora, já que era garantido o fracasso dos africanos, mas no fim, e como sempre acontece, o sonho comandou a vida e o nosso mundial africano é hoje uma realidade.
Que continue a correr tudo dentro da normalidade e que as selecções africanas, empolgadas pelo som estridente das vuvuzelas, consigam superar-se e surpreender o mundo desportivo, apoiadas nas estatísticas favoráveis, que mostram que apenas por uma vez, o mundial não foi ganho por uma selecção do mesmo continente do País organizador. Teremos nós, direito à essa cereja no topo do bolo?! Quem viver, verá!
Os outros membros da FIFA, os não africanos, quiçá imbuídos ainda num espírito neo-colonialista, desde sempre torceram o nariz a essa conquista. Os jornalistas ocidentais, quais profetas da desgraça, criticaram logo a decisão da FIFA e traçaram os piores cenários de insucesso, exaltando sempre os atrasos nas obras, as convulsões sociais, as dificuldades de segurança e tudo mais que podiam agarrar para tentar convencer o mundo que tinha sido um erro atribuir-se à um pais africano a responsabilidade de organizar tamanho evento. Disseram aos seus conterrâneos para não viajarem para a África do sul; alertaram-nos de forma doentia para os inúmeros perigos que estariam a sua espera; criaram gabinetes de crise para emitirem documentos em tempo recorde, prevendo que seriam todos assaltados assim que pisassem o solo sul-africano e em alguns casos, destacaram os seus próprios seguranças para proteger os seus cidadãos e atletas, já que não depositam confiança mínima nas forças policiais lá do gueto. Ainda hoje, já com o campeonato a decorrer, cada assalto que acontece, cada falha logística que se verifica, cada doente de com sida que morre, cada sem-abrigo que se encontra, cada desempregado que se descobre é logo noticia de abertura de telejornal e manchete de jornal, para mostrarem ao resto do mundo que afinal tinham razão, que os selvagens, analfabetos, corruptos e polígamos africanos não podiam nunca ter o direito de realizar um evento de escala planetária, como se esses fossem problemas exclusivos da África do sul, como se não houvesse também desemprego na Europa, como se não houvesse também crime nas Américas ou como se não se morresse também de fome e de sida na Ásia. Seria bonito se assim não fosse, mas infelizmente, essas chagas sociais são, também elas, de escala planetária.
Afinal, por obra e graça de Deus, os estádios ficaram prontos, os aeroportos, os hotéis, as estradas, a segurança e toda a logística acessória também está a funcionar dentro dos parâmetros razoáveis e o primeiro mundial em solo africano está a acontecer. Tem havido algumas falhas de organização?! Sim! Tem acontecido algumas situações complicadas a nível de segurança?! Sim! Mas se até hoje ninguém conseguiu organizar um mundial perfeito, por que carga de água se exige isso da África do sul?!
A cerimónia de abertura foi bonita, majestosa e imponente, digna de um mundial de futebol e das melhores cerimónias de abertura que pude assistir até hoje (a melhor, para mim, foi a dos jogos olímpicos de Pequim em 2008) e não pude deixar de emocionar-me quando o Jacob Zuma declarou oficialmente o inicio do mundial, de mãos dadas com o Joseph Blatter, esse irresponsável e teimoso presidente de FIFA, que a par do próprio presidente da África do sul e do Mandela, foi um dos grandes obreiros dessa conquista que enche de orgulho todos os africanos. Disseram que o homem era louco por acreditar na competência e dedicação dos africanos; disseram que a decisão de levar o mundial à África escondia uma agenda política secreta, quiçá uma rede de corrupção e jogos de interesse e até definiram vários países suplentes que estariam de prontidão para receber o mundial em ultima hora, já que era garantido o fracasso dos africanos, mas no fim, e como sempre acontece, o sonho comandou a vida e o nosso mundial africano é hoje uma realidade.
Que continue a correr tudo dentro da normalidade e que as selecções africanas, empolgadas pelo som estridente das vuvuzelas, consigam superar-se e surpreender o mundo desportivo, apoiadas nas estatísticas favoráveis, que mostram que apenas por uma vez, o mundial não foi ganho por uma selecção do mesmo continente do País organizador. Teremos nós, direito à essa cereja no topo do bolo?! Quem viver, verá!
segunda-feira, 15 de março de 2010
“PRÍNCIPE” – CRÓNICA DE UM BARCO COM O “CORPO SUJO”
Depois de 34 anos de independência e mais de uma dezena de governos; Depois de milhões e milhões de dólares de ajuda externa e de créditos mal empregues; Depois de muitos anos de luta acesa e desesperada; Depois de varias tragédias e um numero elevado de vitimas inocentes; Depois ensaiadas algumas soluções improvisadas e mal sucedidas, a população de São Tomé e Príncipe teve finalmente direito a um barquinho novinho em folha para fazer a ligação entre as duas parcelas do território nacional. Com o nome “Príncipe”, decidiram baptiza-lo.
Rezam as crónicas que foi construído de raiz, atendendo às particularidades e necessidades do povo de São Tomé e Príncipe e equipado com o que de melhor há no mercado em termos de equipamentos de navegação, conforto dos utentes e qualidade dos motores. Um autentico Ferrari dos mares, em comparação aos “Elizabetes”, “Pagués” e “Thereses” a que estávamos habituados. Como tal, decidiu-se (e bem) que os futuros “motoristas” dessa autentica “bomba” fossem fazer uma formação intensiva (e caríssima) em Barcelona, que lhes concederia o grau académico de “ Doutorados em Príncipe”.
A primeira viagem do “Príncipe”, de Barcelona à São Tomé correu de forma excepcional e rápida, segundo relatos dos próprios tripulantes, que exacerbaram também todo o seu contentamento pela performance do barco, na travessia do mediterrâneo e de quase meio oceano Atlântico. Tudo corria às mil maravilhas: Barco novo, bonito e eficiente, tripulação bem preparada (?) e até as peças sobressalentes lembrou-se de comprar atempadamente. A população de São Tomé e sobretudo, a do Príncipe exultou de alegria quando o barco deu entrada pela primeira vez na baia de Ana Chaves. Era a materialização de um sonho antigo e totalmente legítimo.
Chegado à São Tomé, começaram a surgir os problemas por todos conhecidos, que têm ensombrado por completo essa grande conquista do governo de Rafael Branco:
A nível do processo de compra do barco, estão por esclarecer as suspeitas de sobre facturação por parte do ministro da tutela, que justificou a diferença de quase 600 mil dólares no valor do barco com a compra das peças sobressalente (30 mil dólares) e com a estadia e formação dos 5 tripulantes, que ao que parece, estavam, hospedados no hotel “Ritz” de Barcelona, onde uma diária não fica menos de 400 euros e faziam as suas refeições no “El Bulli”, um dos mais caros restaurantes do mundo. Ainda a esse nível, ficou por esmiuçar, a questão dos dois iates que vieram “à reboque” do “Príncipe”, alegadamente pertencentes ao ministro e ao comandante. Foram ofertados, ouviu-se dizer! Por que carga de água alguém oferece tamanhos brindes aos representantes de um estado que apenas serviram de intermediários circunstanciais num negócio?! De repente veio-me à cabeça aquela lei nos EUA que define que os representantes do estado apenas podem aceitar ofertas que não ultrapassem o valor de 150 dólares. Porque será?!
A nível administrativo, o imbróglio na definição dos preços das passagens e do modelo de gestão do barco foram parcialmente ultrapassados com algum bom senso, prevalecendo a ideia de que o barco faz mais falta à população do Príncipe do que a de São Tomé, logo, aquela teria quer ser “ajudada” numa espécie de discriminação positiva. Nada tenho a dizer contra essa medida. Falta resolver a questão da tutela do barco: Continua na ENAPORT? Passa para o governo regional do Príncipe ou se vai pela via da privatização? Seja qual for a resolução, espero eu impere o bom senso e que sejam salvaguardados os superiores interesses da população.
A nível do funcionamento técnico, a curta vida do “Príncipe” não podia ser mais atribulada. Dizem que as suas qualidades e funcionalidades afinal não se adequam às necessidades de São Tomé e Príncipe, constatou-se que o tempo de ligação entre as ilhas é na realidade quase o dobro do que estava projectado e para culminar, sofreu uma “avaria” logo na primeira viagem comercial, seguindo-se de outros problemas técnicos que o obrigaram a subir ao estaleiro ao fim de 1 mês e meio de laboração. O comandante e o director da ENAPORT disseram que os problemas técnicos eram derivados de erros de construção, o primeiro-ministro, apôs falar com os responsáveis da empresa construtora, disse que as avarias identificadas eram consequências de erro humano e caíram-lhe todos em cima. Eu e mais alguns leigos em matéria de navios, achamos estranho que o “príncipe” tenha sido capaz de percorrer mais de 9000 kms na sua grande viagem de Barcelona à São Tomé sem sobreaquecer os motores e conseguido atingir a velocidade projectada (25 nós), e não conseguisse fazer o mesmo nos meros 150 km de mar que ligam São Tomé ao Príncipe. Será que o nosso mar é assim tão complicado? Será que foi uma questão de puro azar? Será que foi sabotagem, como muitos já sugeriram? Ou os nossos “doutores-tripulantes” sentiram a falta dos seus professores espanhóis que os haviam assessorado na viagem de Barcelona?
Como o barco ainda estava coberto pela garantia, chamou-se os técnicos espanhóis para resolverem o problema e simultaneamente, contratou-se um perito independente para averiguar as causas da avaria. Parece que, tanto os técnicos da empresa construtora, como o perito chegaram a conclusão de que a avaria foi provocada por erro humano no manuseamento do “Ferrari”, que supostamente teria sofrido um acidente que não foi relatado às autoridades. Afinal, o primeiro-ministro tinha razão.
Resolvidos os problemas técnicos, o “Príncipe” voltou outra vez ao mar, mas por lá não ficou muito tempo. Na semana passada fomos surpreendidos com a notícia do encalhamento do barco ao largo da baia de Ana Chaves apôs uma noite de temporal. Estava um marinheiro de plantão, mas não conseguiu controlar a embarcação e nem rentabilizar os 2000 cavalos de potência dos motores para impedir que o barco andasse a deriva e fosse beijar as areias brancas da praia Brasil. Qual será a desculpa desta vez? Erros de fabrico? Incompetência? Negligencia? Sabotagem? Ou simples “corpo sujo”?
Espero que se decifre o mais rápido possível as causas de tantos contratempos e que se tenha pulso firme nas acções que forem necessárias tomar para dar volta a situação, para depois não virmos chorar sobre o leite derramado se algo de mais grave acontecer.
Se realmente o barco tiver defeitos de fabrico, troquem-no e peçam as respectivas indemnizações!
Se foi por incompetência da tripulação, troquem-na também ou contratem um supervisor qualificado para fazer um acompanhamento mais próximo até que os homens ganhem “calo”!
Se foi por negligência, responsabilizem os culpados que andam a brincar com tamanho investimento.
Se foi sabotagem, identifiquem os delinquentes, os mandantes e punam-nos exemplarmente.
Se por outro lado, concluírem que se trata de uma questão de puro “corpo sujo”, em virtude do barco ter sido comprado num dia aziago ou do mau-olhado da oposição, mandem vuzar o barco com um “pumbú” de três dias e tocar um “djambí” no convés para afastar os maus espíritos.
Rezam as crónicas que foi construído de raiz, atendendo às particularidades e necessidades do povo de São Tomé e Príncipe e equipado com o que de melhor há no mercado em termos de equipamentos de navegação, conforto dos utentes e qualidade dos motores. Um autentico Ferrari dos mares, em comparação aos “Elizabetes”, “Pagués” e “Thereses” a que estávamos habituados. Como tal, decidiu-se (e bem) que os futuros “motoristas” dessa autentica “bomba” fossem fazer uma formação intensiva (e caríssima) em Barcelona, que lhes concederia o grau académico de “ Doutorados em Príncipe”.
A primeira viagem do “Príncipe”, de Barcelona à São Tomé correu de forma excepcional e rápida, segundo relatos dos próprios tripulantes, que exacerbaram também todo o seu contentamento pela performance do barco, na travessia do mediterrâneo e de quase meio oceano Atlântico. Tudo corria às mil maravilhas: Barco novo, bonito e eficiente, tripulação bem preparada (?) e até as peças sobressalentes lembrou-se de comprar atempadamente. A população de São Tomé e sobretudo, a do Príncipe exultou de alegria quando o barco deu entrada pela primeira vez na baia de Ana Chaves. Era a materialização de um sonho antigo e totalmente legítimo.
Chegado à São Tomé, começaram a surgir os problemas por todos conhecidos, que têm ensombrado por completo essa grande conquista do governo de Rafael Branco:
A nível do processo de compra do barco, estão por esclarecer as suspeitas de sobre facturação por parte do ministro da tutela, que justificou a diferença de quase 600 mil dólares no valor do barco com a compra das peças sobressalente (30 mil dólares) e com a estadia e formação dos 5 tripulantes, que ao que parece, estavam, hospedados no hotel “Ritz” de Barcelona, onde uma diária não fica menos de 400 euros e faziam as suas refeições no “El Bulli”, um dos mais caros restaurantes do mundo. Ainda a esse nível, ficou por esmiuçar, a questão dos dois iates que vieram “à reboque” do “Príncipe”, alegadamente pertencentes ao ministro e ao comandante. Foram ofertados, ouviu-se dizer! Por que carga de água alguém oferece tamanhos brindes aos representantes de um estado que apenas serviram de intermediários circunstanciais num negócio?! De repente veio-me à cabeça aquela lei nos EUA que define que os representantes do estado apenas podem aceitar ofertas que não ultrapassem o valor de 150 dólares. Porque será?!
A nível administrativo, o imbróglio na definição dos preços das passagens e do modelo de gestão do barco foram parcialmente ultrapassados com algum bom senso, prevalecendo a ideia de que o barco faz mais falta à população do Príncipe do que a de São Tomé, logo, aquela teria quer ser “ajudada” numa espécie de discriminação positiva. Nada tenho a dizer contra essa medida. Falta resolver a questão da tutela do barco: Continua na ENAPORT? Passa para o governo regional do Príncipe ou se vai pela via da privatização? Seja qual for a resolução, espero eu impere o bom senso e que sejam salvaguardados os superiores interesses da população.
A nível do funcionamento técnico, a curta vida do “Príncipe” não podia ser mais atribulada. Dizem que as suas qualidades e funcionalidades afinal não se adequam às necessidades de São Tomé e Príncipe, constatou-se que o tempo de ligação entre as ilhas é na realidade quase o dobro do que estava projectado e para culminar, sofreu uma “avaria” logo na primeira viagem comercial, seguindo-se de outros problemas técnicos que o obrigaram a subir ao estaleiro ao fim de 1 mês e meio de laboração. O comandante e o director da ENAPORT disseram que os problemas técnicos eram derivados de erros de construção, o primeiro-ministro, apôs falar com os responsáveis da empresa construtora, disse que as avarias identificadas eram consequências de erro humano e caíram-lhe todos em cima. Eu e mais alguns leigos em matéria de navios, achamos estranho que o “príncipe” tenha sido capaz de percorrer mais de 9000 kms na sua grande viagem de Barcelona à São Tomé sem sobreaquecer os motores e conseguido atingir a velocidade projectada (25 nós), e não conseguisse fazer o mesmo nos meros 150 km de mar que ligam São Tomé ao Príncipe. Será que o nosso mar é assim tão complicado? Será que foi uma questão de puro azar? Será que foi sabotagem, como muitos já sugeriram? Ou os nossos “doutores-tripulantes” sentiram a falta dos seus professores espanhóis que os haviam assessorado na viagem de Barcelona?
Como o barco ainda estava coberto pela garantia, chamou-se os técnicos espanhóis para resolverem o problema e simultaneamente, contratou-se um perito independente para averiguar as causas da avaria. Parece que, tanto os técnicos da empresa construtora, como o perito chegaram a conclusão de que a avaria foi provocada por erro humano no manuseamento do “Ferrari”, que supostamente teria sofrido um acidente que não foi relatado às autoridades. Afinal, o primeiro-ministro tinha razão.
Resolvidos os problemas técnicos, o “Príncipe” voltou outra vez ao mar, mas por lá não ficou muito tempo. Na semana passada fomos surpreendidos com a notícia do encalhamento do barco ao largo da baia de Ana Chaves apôs uma noite de temporal. Estava um marinheiro de plantão, mas não conseguiu controlar a embarcação e nem rentabilizar os 2000 cavalos de potência dos motores para impedir que o barco andasse a deriva e fosse beijar as areias brancas da praia Brasil. Qual será a desculpa desta vez? Erros de fabrico? Incompetência? Negligencia? Sabotagem? Ou simples “corpo sujo”?
Espero que se decifre o mais rápido possível as causas de tantos contratempos e que se tenha pulso firme nas acções que forem necessárias tomar para dar volta a situação, para depois não virmos chorar sobre o leite derramado se algo de mais grave acontecer.
Se realmente o barco tiver defeitos de fabrico, troquem-no e peçam as respectivas indemnizações!
Se foi por incompetência da tripulação, troquem-na também ou contratem um supervisor qualificado para fazer um acompanhamento mais próximo até que os homens ganhem “calo”!
Se foi por negligência, responsabilizem os culpados que andam a brincar com tamanho investimento.
Se foi sabotagem, identifiquem os delinquentes, os mandantes e punam-nos exemplarmente.
Se por outro lado, concluírem que se trata de uma questão de puro “corpo sujo”, em virtude do barco ter sido comprado num dia aziago ou do mau-olhado da oposição, mandem vuzar o barco com um “pumbú” de três dias e tocar um “djambí” no convés para afastar os maus espíritos.
quarta-feira, 10 de março de 2010
MORREU ALDA DO ESPIRITO SANTO
Junto a minha humilde voz ao coro de vozes que manifestam a sua desolação por esta perda irreparável para a nossa nação e aproveito para hipotecar junto a família enlutada os mais sentidos votos de pesar. São Tomé e Príncipe ficou mais pobre desde ontem, acreditem!
Tive o privilégio de conhecer pessoalmente a Dona Alda nos finais da década de oitenta, quando fazia parte de um grupo de estudantes da Trindade, que sob o incentivo de um professor (confesso que já não me lembro se foi o professor “Chandinho” ou o professor Bernardo), teve a pretensão de aventurar-se no mundo da poesia (pensávamos na altura que tal façanha estava ao alcance de qualquer comum mortal), na tentativa de fazer surgir novos valores nas letras de São Tomé e Príncipe. Reunimo-nos duas ou três vezes com ela para apresentar os nossos escritos e pedir orientações e posso dizer sem qualquer demagogia que foi ela que definitivamente plantou em mim o gosto pela leitura e escrita. Deu-nos um conselho valioso (“…para escreverem bem, têm que ler, ler muito”) e dois livros para cada um: Um de prosa e outro de poesia. A mim calhou o “Sagrada esperança” do seu amigo Agostinho Neto e o “Terra morta” de Castro Soromenho. Foram os primeiros livros “a sério” que li na minha vida e ainda os conservo no meu antigo quarto, na roça do meu avô, nos arredores da Trindade, tinha 12 ou 13 anos na altura.
Pensei em varias formas de lhe prestar uma singela homenagem, mas nada me parece mais apropriado do que faze-lo na linguagem que ela melhor entendia: A linguagem da poesia.
- Dona Alda, embora não tenha o génio e o talento que lhe eram reconhecidos, arrisquei esses versos para si. Que Deus a tenha no seu eterno descanso!
MAMÃ GRANDE
Shiu! Não façam barulho, mamã grande está a dormir…
E quando ela dorme, o silêncio tem que reinar
E quando ela dorme, ninguém pode chorar ou rir
Porque se ela deixar de dormir, será incapaz de sonhar
Shiu! Não façam barulho, mamã grande está a sonhar…
E quando ela sonha, suas memórias consegue rever
E quando ela sonha, a inspiração sai a ganhar
Porque se ela deixar de sonhar, será incapaz de escrever
Shiu! Não façam barulho, mamã grande está a escrever…
E quando ela escreve, mentalidades consegue mudar
E quando ela escreve, dá um sentido ao nosso viver
Porque se ela deixar de escrever, será incapaz de lutar
Shiu! Não façam barulho, não agora…
Mesmo que mamã grande já não sonhe
Mesmo que mamã grande já não escreva
Mesmo que mamã grande já não lute
Porque nem a morte a fará morrer em nós
Tive o privilégio de conhecer pessoalmente a Dona Alda nos finais da década de oitenta, quando fazia parte de um grupo de estudantes da Trindade, que sob o incentivo de um professor (confesso que já não me lembro se foi o professor “Chandinho” ou o professor Bernardo), teve a pretensão de aventurar-se no mundo da poesia (pensávamos na altura que tal façanha estava ao alcance de qualquer comum mortal), na tentativa de fazer surgir novos valores nas letras de São Tomé e Príncipe. Reunimo-nos duas ou três vezes com ela para apresentar os nossos escritos e pedir orientações e posso dizer sem qualquer demagogia que foi ela que definitivamente plantou em mim o gosto pela leitura e escrita. Deu-nos um conselho valioso (“…para escreverem bem, têm que ler, ler muito”) e dois livros para cada um: Um de prosa e outro de poesia. A mim calhou o “Sagrada esperança” do seu amigo Agostinho Neto e o “Terra morta” de Castro Soromenho. Foram os primeiros livros “a sério” que li na minha vida e ainda os conservo no meu antigo quarto, na roça do meu avô, nos arredores da Trindade, tinha 12 ou 13 anos na altura.
Pensei em varias formas de lhe prestar uma singela homenagem, mas nada me parece mais apropriado do que faze-lo na linguagem que ela melhor entendia: A linguagem da poesia.
- Dona Alda, embora não tenha o génio e o talento que lhe eram reconhecidos, arrisquei esses versos para si. Que Deus a tenha no seu eterno descanso!
MAMÃ GRANDE
Shiu! Não façam barulho, mamã grande está a dormir…
E quando ela dorme, o silêncio tem que reinar
E quando ela dorme, ninguém pode chorar ou rir
Porque se ela deixar de dormir, será incapaz de sonhar
Shiu! Não façam barulho, mamã grande está a sonhar…
E quando ela sonha, suas memórias consegue rever
E quando ela sonha, a inspiração sai a ganhar
Porque se ela deixar de sonhar, será incapaz de escrever
Shiu! Não façam barulho, mamã grande está a escrever…
E quando ela escreve, mentalidades consegue mudar
E quando ela escreve, dá um sentido ao nosso viver
Porque se ela deixar de escrever, será incapaz de lutar
Shiu! Não façam barulho, não agora…
Mesmo que mamã grande já não sonhe
Mesmo que mamã grande já não escreva
Mesmo que mamã grande já não lute
Porque nem a morte a fará morrer em nós
sábado, 2 de janeiro de 2010
CONVERSAS SOLTAS XIV - Ainda sobre a eleição do PR para o cargo de PR do MDFM.
* Dois São-tomenses, minimamente inteligentes e cultos, um deles até com conhecimentos básicos de Direito, comentavam assim os últimos acontecimentos políticos no País:
São-tomense 1 – Ouviste ontem a mensagem de fim do ano dos presidentes?
São-tomense 2 – Dos presidentes?! Como assim?!
1 – Então?! Do presidente da Republica e do presidente do MDFM.
2 – Ah pois é, já me esquecia que agora são dois em um. Grande embrulhada!
1 – Podes crer! Como já há muito que não vivíamos um clima de instabilidade e crise política, bateu uma nostalgia no Fradique e lá resolveu voltar aos bons velhos tempos.
2 – …E isso era tudo o que não precisávamos, há três meses de terminar uma legislatura que apesar de tudo, não foi tão complicada como se previa. Mas afinal, o homem pode, ou não pode ser duplo presidente?
1 – Epá sócio, sabes que eu já nem sei quem tem razão?! O Fradique acha que sim, o MLSTP, o PCD e uns gajos de uma organização lá de Portugal chamada yahoo group acham que não. A RDPÁfrica foi ouvir a opinião de dois grandes constitucionalistas Portugueses e um acha que sim e o outro diz que não. Agora só temos que esperar que os juízes do Supremo Tribunal de Justiça de São Tomé digam qualquer coisa. Em princípio, eles é que têm a ultima palavra sobre esse assunto.
2 – Volto a dizer: Grande embrulhada! Mas aqui no País não há nenhum constitucionalista ou coisa parecida? Será que isso não era motivo para os jornalistas promoverem um debate público sobre o tema? Incomoda-me que num assunto tão sério como esse, as duas únicas opiniões de carácter técnico sejam de dois estrangeiros. Onde é que anda a malta do Direito de São Tomé?! Era bastante interessante saber o ponto de vista deles. Será que se isso acontecesse em Portugal ou noutro lado qualquer, as pessoas iriam se dar ao trabalho de ouvir a opinião dos especialistas São-tomenses?!
1 – Estavas a espera de quê? Os homens é que fizeram a nossa constituição, pá! E digo mais, não me espantaria nada mesmo se os Juízes do STJ fossem consultar um deles antes de decidirem na tal acção que o MLSTP pretende interpor em Tribunal.
2 – Enfim…É o nosso destino de tudo-dependentes! Mas qual desses gajos é mais forte? Quem fala mais alto?
1 – Epá, pelo que sei, são os dois doutorados e professores catedráticos, mas acho que o Jorge Miranda, o que defende a tese do Fradique, tem mais nome que o Bacelar Gouveia.
2 – Aié? Então já está no papo, o Fradique vai limpar essa boca sem problema. As pessoas são sempre influenciadas pelos homens mais fortes.
1 – Até podes ter razão, mas vamos ter que esperar para ver.
2 – Mas diz-me uma coisa: Como é que dois gajos doutorados e catedráticos podem ter opiniões contrárias sobre a mesma lei? Isso é um bocado estranho.
1 – Meu caro, nunca ouviste falar na diferença que há entre a letra da lei e o espírito da lei?
2 – Espírito da lei?! Isso é para os gajos que têm olho leve ou quê? Isso não terá mais a ver com simpatias e interesses?
1 – Nada disso, pá! No Direito, as vezes, mais importante do que está escrito na lei, é a forma como essa lei é interpretada. Por isso é que os dois têm opiniões diferentes. Eles estão a interpretar a lei de maneiras diferentes. O Bacelar Gouveia vai pelo que está escrito na lei e diz que a função de presidente da Republica é incompatível com qualquer outra função, seja pública ou privada, o Jorge Miranda, interpreta de outra forma e diz que a função de presidente de um partido político, é um cargo essencialmente político e por isso, não entra no âmbito público nem no privado.
2 – Espera ai… Então, pela lógica desse Jorge Miranda, se o que é politico não entra no domínio publico e nem no privado, em economia, por exemplo, quando se fala em sector público e sector privado, propriedade pública e propriedade privada, tem que se falar também em sector político e propriedade política?! Mesmo em relação ao Direito, sempre tive a noção que se dividia em Direito publico e Direito privado, não fazia ideia que existia uma secção autónoma de Direito Politico. Então e os cargos de primeiro-ministro, de ministro e de deputado, não são cargos políticos e públicos inerentes à existência de partidos políticos? Por que carga de água é que o cargo de presidente de um partido político não entra no domínio público e nem no privado?
1 – Não faço a mais pálida ideia. Mas se o homem afirma isso publicamente, deve ter lá os seus argumentos privados.
2 – Epá, não me lixem! Não percebo nada de Direito, mas acho que o cargo de presidente de um partido político tem que ser enquadrado no âmbito público ou privado, não se pode criar uma terceira via. Senão posso também criar uma quarta via e dizer que as palaiês e os pescadores exercem funções essencialmente piscatórias, logo, o Fradique se quisesse, podia tomar o lugar da Pochí, como líder das palaiés ou do sun Pêma, como chefe dos pescadores da praia Gamboa. Ou então, como o cargo de comandante da polícia é uma função essencialmente policial, podia-se criar também uma quinta via e ele podia assumir o lugar do Vicente. E já agora, porque não, assumir o cargo do Afonso Henriques como presidente da câmara do comércio, já que se trata de um cargo essencialmente comercial/empresarial e ele até tem experiencia nessa área? Quem cria cinco vias, mais uma não fazia diferença. Levando isso ao extremo, temos que admitir então a possibilidade de passar a existir até casas de banho políticas, além das públicas e privadas. Se calhar vou sugerir ao presidente da Assembleia que mande colocar umas placas nas casas de banho do palácio dos congressos com a inscrição: Toilette política.
1 – Até podes ter razão, mas a questão de fundo é que, independentemente de tudo, das questões jurídicas e constitucionais, num regime semi-presidencialista como o nosso, em que o presidente é considerado o árbitro do sistema, o fiel da balança, ele nunca se devia envolver nas questões político-partidárias, até por imperativo ético e moral e a bem do regular funcionamento das instituições. E nessa área, temos o exemplo do próprio presidente de Portugal, que antes mesmo de ser eleito, cancelou a sua inscrição como militante do PSD e apresentou-se como candidato independente de qualquer cor partidária. Não se pode falar em estabilidade e paz institucional, em coabitação e bom relacionamento entre o Órgão presidente da Republica e o Órgão Governo, quando o jogo a partida está viciado, já que uma das partes é simultaneamente jogador e arbitro. E o resultado dessa promiscuidade está a vista: A primeira decisão de fundo que o homem tomou foi romper com a coligação de governo e mandar recolher os seus ministros às boxes, em clara represália ao facto do MLSTP ter manifestado a intenção de levar o caso ao tribunal. Não se importando com as consequências que isso terá para o País. Tomemos como exemplo, a situação do ministro Raul Cravid que estava na linha da frente nas conversações com os trabalhadores grevistas da ENASA e que agora vão ter que ficar suspensas.
2 – Não creio que essa coisa de romper a coligação foi só um acto de represália. Cá para mim, isso foi já uma jogada política para o MDFM desmarcar-se de qualquer coisa que tenha corrido mal a esse Governo. O homem já está de olho nas eleições legislativas. Aliás, todas as decisões que o Fradique tomar, tudo o que ele disser daqui para frente será com o objectivo de defender a sua posição e tentar amealhar o maior número de votos para o MDFM nas próximas eleições. Digam o que disserem, vai ser impossível separar o presidente da Republica do presidente do MDFM e cabeça de lista às eleições legislativas de Abril ou Maio!
1 – Epá, de qualquer forma o mal já está feito. Só nos resta esperar que os juízes do Supremo digam de sua justiça.
2 – Vamos lá ver se os homens também têm olho leve ou não. Só espero que a decisão deles seja respeitada, seja ela qual for!
1 – Vai ser uma decisão com efeitos devastadores, para um lado ou para outro. Não gostaria de estar na pele deles.
2 – Olha, eu é que não me importava nada de estar no lugar deles. Com tantos interesses em jogo, pode rolar muito ferro.
E dito isso, deram por terminada a troca de ideias.
São-tomense 1 – Ouviste ontem a mensagem de fim do ano dos presidentes?
São-tomense 2 – Dos presidentes?! Como assim?!
1 – Então?! Do presidente da Republica e do presidente do MDFM.
2 – Ah pois é, já me esquecia que agora são dois em um. Grande embrulhada!
1 – Podes crer! Como já há muito que não vivíamos um clima de instabilidade e crise política, bateu uma nostalgia no Fradique e lá resolveu voltar aos bons velhos tempos.
2 – …E isso era tudo o que não precisávamos, há três meses de terminar uma legislatura que apesar de tudo, não foi tão complicada como se previa. Mas afinal, o homem pode, ou não pode ser duplo presidente?
1 – Epá sócio, sabes que eu já nem sei quem tem razão?! O Fradique acha que sim, o MLSTP, o PCD e uns gajos de uma organização lá de Portugal chamada yahoo group acham que não. A RDPÁfrica foi ouvir a opinião de dois grandes constitucionalistas Portugueses e um acha que sim e o outro diz que não. Agora só temos que esperar que os juízes do Supremo Tribunal de Justiça de São Tomé digam qualquer coisa. Em princípio, eles é que têm a ultima palavra sobre esse assunto.
2 – Volto a dizer: Grande embrulhada! Mas aqui no País não há nenhum constitucionalista ou coisa parecida? Será que isso não era motivo para os jornalistas promoverem um debate público sobre o tema? Incomoda-me que num assunto tão sério como esse, as duas únicas opiniões de carácter técnico sejam de dois estrangeiros. Onde é que anda a malta do Direito de São Tomé?! Era bastante interessante saber o ponto de vista deles. Será que se isso acontecesse em Portugal ou noutro lado qualquer, as pessoas iriam se dar ao trabalho de ouvir a opinião dos especialistas São-tomenses?!
1 – Estavas a espera de quê? Os homens é que fizeram a nossa constituição, pá! E digo mais, não me espantaria nada mesmo se os Juízes do STJ fossem consultar um deles antes de decidirem na tal acção que o MLSTP pretende interpor em Tribunal.
2 – Enfim…É o nosso destino de tudo-dependentes! Mas qual desses gajos é mais forte? Quem fala mais alto?
1 – Epá, pelo que sei, são os dois doutorados e professores catedráticos, mas acho que o Jorge Miranda, o que defende a tese do Fradique, tem mais nome que o Bacelar Gouveia.
2 – Aié? Então já está no papo, o Fradique vai limpar essa boca sem problema. As pessoas são sempre influenciadas pelos homens mais fortes.
1 – Até podes ter razão, mas vamos ter que esperar para ver.
2 – Mas diz-me uma coisa: Como é que dois gajos doutorados e catedráticos podem ter opiniões contrárias sobre a mesma lei? Isso é um bocado estranho.
1 – Meu caro, nunca ouviste falar na diferença que há entre a letra da lei e o espírito da lei?
2 – Espírito da lei?! Isso é para os gajos que têm olho leve ou quê? Isso não terá mais a ver com simpatias e interesses?
1 – Nada disso, pá! No Direito, as vezes, mais importante do que está escrito na lei, é a forma como essa lei é interpretada. Por isso é que os dois têm opiniões diferentes. Eles estão a interpretar a lei de maneiras diferentes. O Bacelar Gouveia vai pelo que está escrito na lei e diz que a função de presidente da Republica é incompatível com qualquer outra função, seja pública ou privada, o Jorge Miranda, interpreta de outra forma e diz que a função de presidente de um partido político, é um cargo essencialmente político e por isso, não entra no âmbito público nem no privado.
2 – Espera ai… Então, pela lógica desse Jorge Miranda, se o que é politico não entra no domínio publico e nem no privado, em economia, por exemplo, quando se fala em sector público e sector privado, propriedade pública e propriedade privada, tem que se falar também em sector político e propriedade política?! Mesmo em relação ao Direito, sempre tive a noção que se dividia em Direito publico e Direito privado, não fazia ideia que existia uma secção autónoma de Direito Politico. Então e os cargos de primeiro-ministro, de ministro e de deputado, não são cargos políticos e públicos inerentes à existência de partidos políticos? Por que carga de água é que o cargo de presidente de um partido político não entra no domínio público e nem no privado?
1 – Não faço a mais pálida ideia. Mas se o homem afirma isso publicamente, deve ter lá os seus argumentos privados.
2 – Epá, não me lixem! Não percebo nada de Direito, mas acho que o cargo de presidente de um partido político tem que ser enquadrado no âmbito público ou privado, não se pode criar uma terceira via. Senão posso também criar uma quarta via e dizer que as palaiês e os pescadores exercem funções essencialmente piscatórias, logo, o Fradique se quisesse, podia tomar o lugar da Pochí, como líder das palaiés ou do sun Pêma, como chefe dos pescadores da praia Gamboa. Ou então, como o cargo de comandante da polícia é uma função essencialmente policial, podia-se criar também uma quinta via e ele podia assumir o lugar do Vicente. E já agora, porque não, assumir o cargo do Afonso Henriques como presidente da câmara do comércio, já que se trata de um cargo essencialmente comercial/empresarial e ele até tem experiencia nessa área? Quem cria cinco vias, mais uma não fazia diferença. Levando isso ao extremo, temos que admitir então a possibilidade de passar a existir até casas de banho políticas, além das públicas e privadas. Se calhar vou sugerir ao presidente da Assembleia que mande colocar umas placas nas casas de banho do palácio dos congressos com a inscrição: Toilette política.
1 – Até podes ter razão, mas a questão de fundo é que, independentemente de tudo, das questões jurídicas e constitucionais, num regime semi-presidencialista como o nosso, em que o presidente é considerado o árbitro do sistema, o fiel da balança, ele nunca se devia envolver nas questões político-partidárias, até por imperativo ético e moral e a bem do regular funcionamento das instituições. E nessa área, temos o exemplo do próprio presidente de Portugal, que antes mesmo de ser eleito, cancelou a sua inscrição como militante do PSD e apresentou-se como candidato independente de qualquer cor partidária. Não se pode falar em estabilidade e paz institucional, em coabitação e bom relacionamento entre o Órgão presidente da Republica e o Órgão Governo, quando o jogo a partida está viciado, já que uma das partes é simultaneamente jogador e arbitro. E o resultado dessa promiscuidade está a vista: A primeira decisão de fundo que o homem tomou foi romper com a coligação de governo e mandar recolher os seus ministros às boxes, em clara represália ao facto do MLSTP ter manifestado a intenção de levar o caso ao tribunal. Não se importando com as consequências que isso terá para o País. Tomemos como exemplo, a situação do ministro Raul Cravid que estava na linha da frente nas conversações com os trabalhadores grevistas da ENASA e que agora vão ter que ficar suspensas.
2 – Não creio que essa coisa de romper a coligação foi só um acto de represália. Cá para mim, isso foi já uma jogada política para o MDFM desmarcar-se de qualquer coisa que tenha corrido mal a esse Governo. O homem já está de olho nas eleições legislativas. Aliás, todas as decisões que o Fradique tomar, tudo o que ele disser daqui para frente será com o objectivo de defender a sua posição e tentar amealhar o maior número de votos para o MDFM nas próximas eleições. Digam o que disserem, vai ser impossível separar o presidente da Republica do presidente do MDFM e cabeça de lista às eleições legislativas de Abril ou Maio!
1 – Epá, de qualquer forma o mal já está feito. Só nos resta esperar que os juízes do Supremo digam de sua justiça.
2 – Vamos lá ver se os homens também têm olho leve ou não. Só espero que a decisão deles seja respeitada, seja ela qual for!
1 – Vai ser uma decisão com efeitos devastadores, para um lado ou para outro. Não gostaria de estar na pele deles.
2 – Olha, eu é que não me importava nada de estar no lugar deles. Com tantos interesses em jogo, pode rolar muito ferro.
E dito isso, deram por terminada a troca de ideias.
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