Um dia li num desses livros aparentemente inúteis que se vendiam nas antigas ferias do livro em São Tomé, um poema de um poeta Brasileiro que, se a memoria não me atraiçoa, num dos seus versos dizia o seguinte: “ Não consigo entender três coisas, o tempo, a morte e o teu olhar”.
Na época, não reflecti de uma forma seria sobre essa frase, porque estávamos naquela fase da adolescência em que um poema bonito declamado na altura certa, poderia significar o sucesso de uma conquista amorosa e acabei apenas por decora-lo de forma “desligada” para um ocasião daquelas. Hoje, com a maturidade e o "vivimento" que só a idade proporciona, ao escolher a morte como o segundo tema das minhas “reflexões soltas”, dei comigo a pensar seriamente no alcance e conteúdo filosófico dessa frase.
Concordo plenamente com o autor quando diz que não entende o olhar da sua amada (embora nunca a tenha visto) porque partindo da premissa universal que o olhar de uma mulher é imperscrutável, só tenho que assinar por baixo.
O tempo, também não o entendo, pelo menos hoje. Pode ser que daqui há algum tempo possa vir a tentar entendê-lo e quiçá escolhe-lo como o tema de uma das minhas futuras “reflexões”, mas hoje não! Hoje apetece-me apenas divagar sobre a utilidade da morte.
O que é então a morte? Significara ela o fim de tudo ou o princípio de algo de muito bom? E como seria o mundo se ela não existisse?
Como não sou bruxo e não conheço ninguém que tenha experimentado a sensação de estar “do lado de lá”, não posso ter a pretensão de saber a resposta para algumas dessas questões complicadas e nem me atrevo a desenhar cenários floridos sobre algo que ninguém consegue provar, pelo menos até ser embalado nos tentáculos frios da morte (mesmo chegando a esse ponto, trata-se de uma “experimentação” em que não se pode partilhar as conclusões com mais ninguém, a não ser que os outros queiram também, a titulo de curiosidade, viver a experiencia na sua plenitude, que é como quem diz: Viver a morte…Irónico, não é?). Posso sim, enfatizar a premissa muito verdadeira de que, num universo de variáveis relativas, apenas o carácter absoluto e definitivo da morte é incontestável. Todos acabamos por morrer um dia, alternando na equação da vida apenas as variáveis “como”,” onde” e “quando”. Logo, posso concluir com toda a propriedade e de forma irrefutável que sob certo ponto de vista, não está errado afirmar que nós viemos ao mundo para morrer e que é esse o nosso propósito final e o único “objectivo” comum de todos e de tudo nessa vida.
O facto de chegar a essa conclusão não significa que concordo com a existência da morte ou que valorize a sua utilidade, aliás, sou um acérrimo critico da morte desde que ela levou o meu pai há cerca de 26 anos atrás, deixando a minha mãe desamparada com 4 filhos pequenos para criar.
Naturalmente que o meu lado racional aceita a morte como uma coisa necessária para manter o equilíbrio no nosso mundo e até para valorizar a própria vida, mas o meu lado emocional, não! O meu lado emocional não vê utilidade nenhuma na morte e até preferiria que ela não existisse. O meu lado emocional adoraria não ter que experimentar os sentimentos de dor, de perda e de saudade que nos varrem o corpo e a alma sempre que morre alguém que nos é querido. O meu lado emocional daria o “seu dedinho da mão esquerda” para que se inventasse um estratagema infalível para enganar a morte sem por em risco o tal equilíbrio natural que a própria morte garante. O meu lado emocional rejubilaria de alegria se o meu pai não tivesse morrido, se as minhas avós também estivessem ainda vivas e com elas, todos os familiares e amigos que já perdi nessa vida. Mas como o mundo não gira a volta do meu umbigo, também os pais, os avôs, as avós, os amigos e familiares de todos ainda estariam vivos. Como seria então? Onde caberíamos todos? Será que chegaríamos a nascer, nós, cujos antepassados já existiam há tantos milénios atrás e com a ausência da morte certamente chegariam a um ponto em que deixariam de fazer o amor com o intuito de procriar? Talvez esteje a exagerar um pouquinho nesses desejos desvairados do meu lado emocional, mas já que estamos todos fatalmente condenados a morrer, custava "inventarem" algumas regras basicas para a morte ser menos penosa?! E se por exemplo, apenas fosse permitido morrermos durante o sono de forma totalmente indolor? Custava assim tanto implantarem essa regra?! E se fosse proibido morrermos antes dos 40 anos, de forma a permitir que todos pudessem experimentar a vida de forma mais prolongada e evitar que as crianças e os jovens perdessem a vida prematuramente?! Fazia assim tanta diferença?! E se fosse totalmente inconcebivel os filhos morrerem antes dos Pais?! A morte em si é algo doloroso, mas garanto-vos que não há nada mais doloroso e traumatizante do que os Pais perderem um filho. E se não fosse permitido morrer mais do que uma pessoa de cada vez na mesma familia?! Tendo em conta as despesas de um funeral, até na parte financeira estariámos mais aliviados. Ficam assim registadas algumas das minhas reivindicações dirigidas à entidade que inventou a morte.
Posso então concluir que se hoje estou aqui a escrever esses impropérios contra a morte, a ela o devo, porque se ela não existisse, também eu não existiria. Resta-me pois, dar primazia ao meu lado racional e aceitar a morte como algo natural e necessário, sem cair na tentação de tentar entende-la, limitando-me a fazer figas para que eu a encontre apenas no ocaso da minha existência, porque apesar de tudo, parafraseando o meu amigo Uva (assim chamado pela sua tendência para exagerar no consumo do vinho tinto): A VIDA É BELA E QUEM MORRE É BURRO!!!!!!
Não consigo entender o tempo, a morte e o teu olhar, dizia o poeta. Continuo sem conseguir entender o tempo, a morte e o olhar das mulheres, digo eu, resignado.
quinta-feira, 23 de abril de 2009
sexta-feira, 3 de abril de 2009
CONVERSAS SOLTAS XII - Sobre o (mau) funcionamento da EMAE.
* Dois compadres encontram-se nas instalações da EMAE quando iam pagar as suas contas de água e luz:
Compadre 1 – Olha quem está aqui…Há muito tempo compadre… Como é que foi a estadia em Portugal? E a comadre Maria? Já esta melhor?
Compadre 2 – Pois é meu caro amigo, já se passaram 4 meses…A Maria está a recuperar bem da operação, como já estávamos sem dinheiro, tive que regressar sozinho para voltar ao trabalho. Ela vai continuar por lá mais um mês na casa dos familiares.
C 1 – Isso são boas notícias, ainda bem que a irmã dela conseguiu mexer água para essa Junta médica, vale a pena ser vivêncha de gente pesada… Então?! Compadre veio contribuir mais um bocado para o aumento da conta da EMAE? Olha que essa coisa de energia e água continua complicado por aqui…
C 2 – Nem te digo nada, depois de 4 meses fora do Pais, recebo ontem uma factura de água e luz de dois milhões de dobras…Dá para acreditar? Dois milhões!
C1 – Credo! Compadre deixou alguma coisa ligada ou quê? Alguma lâmpada ou frigorifico?
C 2 – Qual frigorífico? Desde que o outro avariou no ano passado que nós não temos frigorifico em casa e só agora é que eu trouxe uma televisão pequena que me deram em Portugal... Em casa só temos 5 lâmpadas, ferro de engomar e um rádio que eu ligo de vez enquanto para ouvir as notícias e fechei a torneira do próprio contador da agua antes de viajar… E mesmo que tivesse deixado uma lâmpada acesa não era caso para chegar a esse valor com essa situação de só haver energia um dia sim, dois dias não.
C 1 – Realmente isso é um roubo. Compadre tem que reclamar.
C 2 – O quê que compadre acha que estou a fazer? Há 3 dias que ando para frente e para trás…No primeiro dia falei com aquela senhora do balcão e ela disse que não pode fazer nada, se o contador marcou, está marcado! Pedi para falar com o chefe dela e ela disse que ele tinha ido almoçar, provavelmente só voltaria no dia seguinte. Dito e feito, esperei pelo homem até ao fim do expediente e o gajo não voltou… Vim ontem falar com ele, trouxe o bilhete de passagem e as copias dos documentos da junta para provar que estive ausente do País durante 4 meses e ele disse que sou mentiroso, que aluguei a casa a alguém e agora não quero pagar. Fui falar com o Director comercial, expliquei a situação e ele mandou um técnico ir lá pra casa confirmar a leitura.
C 1 – …E como é que ficou? Estava marcado?
C 2 – O gajo mexeu no contador, mostrou uns números esquisitos que eu não percebi e disse que estava bem e que tinha de pagar… Voltei hoje para falar com o Director comercial outra vez e disse-lhe que se não resolvesse o meu problema, iria falar com o próprio Director da EMAE e até com o Ministro se fosse preciso. Sabes que ele me disse?! Que o máximo que podia fazer era perdoar uma parte e eu pagar a outra. Já viste como é que as coisas funcionam aqui na EMAE?
C 1 – Isso esta cada vez pior…Eu também as vezes noto que as facturas vêm com valores muito altos e sempre que reclamo, voltam a baixar o valor, as vezes sem ir confirmar no contador…Realmente essa EMAE é um bobo.
C 2 – É bobo ou são uns ladrões! Mandam as facturas aldrabadas e se um gajo não reclama, dão-te no lombo com a força toda. Se com essas falhas de energia a gente já paga tudo isso, imagina se a energia fosse 24 h sobre 24h? Aí é que estávamos todos “buiados”. Mesmo assim nunca têm dinheiro para pagar o gasóleo da ENCO.
C 1 – Por isso é que o País não arranca…Um gajo vai tratar de algum documento e há sempre problemas porque não há energia pra ligar o computador e o ar condicionado dos funcionários públicos. As empresas que não têm geradores próprios são constantemente lesadas no seu processo de produção e vêm os seus apanhar por tabela clientes por falta de energia eléctrica. Quem tem frigorifico em casa não pode comprar o peixe em quantidade quando está barato porque não dá para saber se vai ter energia ou não para conservar o peixe. As coitadas das palaiês as vezes têm que deixar o peixe estragar porque a própria fabrica de gelo as vezes também não tem energia. O meu filho mais velho estuda a noite e quase nunca tem aulas por falta de energia e por causa disso, duas colegas ja apanharam bariga. Um gajo nunca sabe qual dia que pode assistir ao telejornal ou a um jogo na TV pelo mesmo motivo. Sem falar que esses cortes constantes de energia e as oscilações da corrente dão cabo de todos os electrodomésticos em casa…
C 2 – Pois é, foi assim que o meu frigorifico foi a vida…Nem durou 2 anos. Até já sinto saudades de chegar a casa depois do trabalho e beber uma “fresquinha” a estalar…
C 1 – É melhor compadre contentar com a cerveja quente porque a coisa está cada vez pior.
C 2 – Eu sei…Já deu pra notar que ainda há um longo calvário a ser percorrido…Mas ouvi falar que estão a pensar construir mini barragens hídricas com ajuda do Brasil. É verdade isso?
C 1 – Também ouvi qualquer coisa sobre isso, mas sinceramente que não sei se não será mais um projecto que não passará do papel…Depois de tantos estudos, tantos projectos falhados, tantas expectativas frustradas até tenho medo de voltar a ter esperança para não voltar a ter desilusões…E depois um gajo já esta tão habituado a essa vida que já nem liga muito a isso. Se tiver agua, tomo banho no chuveiro e encho os baldes todos para guardar, se não tiver, vou com os miúdos buscar no chafariz. Se tiver luz, vejo televisão, a mulher engoma com ferro eléctrico e os miúdos podem brincar na rua a noite, se não houver energia, jantamos com luz de vela e vamos cedo para cama fazer “coisa”.
C 2 – Pois é….Eu como estou “sôle”, nem isso posso fazer…
C 1 – Tem calma que isso é temporário… E como é que fica a situação da factura? Compadre vai pagar ou vai tentar falar com o Director da EMAE?
C 2 – Nem sei...E se eles ficarem com raiva por eu ter procurado o Director e nunca mais me darem energia? Como já consegui eliminar uma metade se calhar pago esse um milhão assim mesmo e chamo Deus…
C 1 – Nada disso, não podemos cruzar os braços e dizer sempre “sim senhor” a esses bandidos…Se compadre tem a certeza que não deixou nada ligado para justificar os dois milhões da factura, tem que reclamar e gritar "quidalê" até ao Primeiro-ministro e o Presidente se for preciso. É por esse comodismo que nos encontramos nessa situação. Temos que aprender a reclamar quando as coisas não estão bem e a lutar pelos nossos direitos de uma vez por todas!
C 2 – Ohhhh…Compadre pareceu um político a falar…Sim senhor! Compadre devia vir comigo para ajudar-me a falar com o homem…
C 1 – Kéi, compadre acha? Pra cortarem a minha energia também? O problema é do compadre e é o compadre que em que resolver sozinho. Além disso já não dá tempo, tenho que voltar ao trabalho agora…
C 2 – Eu logo vi que essa conversa era só zôplo…Como sempre, falar é bonito, mas na hora de agir, é cada um por si, não é?
C 1 - ....
E lá seguiram os compadres, cada um pró seu lado, pensativos e acomodados às suas vidas medíocres…Tristemente acomodados.
Compadre 1 – Olha quem está aqui…Há muito tempo compadre… Como é que foi a estadia em Portugal? E a comadre Maria? Já esta melhor?
Compadre 2 – Pois é meu caro amigo, já se passaram 4 meses…A Maria está a recuperar bem da operação, como já estávamos sem dinheiro, tive que regressar sozinho para voltar ao trabalho. Ela vai continuar por lá mais um mês na casa dos familiares.
C 1 – Isso são boas notícias, ainda bem que a irmã dela conseguiu mexer água para essa Junta médica, vale a pena ser vivêncha de gente pesada… Então?! Compadre veio contribuir mais um bocado para o aumento da conta da EMAE? Olha que essa coisa de energia e água continua complicado por aqui…
C 2 – Nem te digo nada, depois de 4 meses fora do Pais, recebo ontem uma factura de água e luz de dois milhões de dobras…Dá para acreditar? Dois milhões!
C1 – Credo! Compadre deixou alguma coisa ligada ou quê? Alguma lâmpada ou frigorifico?
C 2 – Qual frigorífico? Desde que o outro avariou no ano passado que nós não temos frigorifico em casa e só agora é que eu trouxe uma televisão pequena que me deram em Portugal... Em casa só temos 5 lâmpadas, ferro de engomar e um rádio que eu ligo de vez enquanto para ouvir as notícias e fechei a torneira do próprio contador da agua antes de viajar… E mesmo que tivesse deixado uma lâmpada acesa não era caso para chegar a esse valor com essa situação de só haver energia um dia sim, dois dias não.
C 1 – Realmente isso é um roubo. Compadre tem que reclamar.
C 2 – O quê que compadre acha que estou a fazer? Há 3 dias que ando para frente e para trás…No primeiro dia falei com aquela senhora do balcão e ela disse que não pode fazer nada, se o contador marcou, está marcado! Pedi para falar com o chefe dela e ela disse que ele tinha ido almoçar, provavelmente só voltaria no dia seguinte. Dito e feito, esperei pelo homem até ao fim do expediente e o gajo não voltou… Vim ontem falar com ele, trouxe o bilhete de passagem e as copias dos documentos da junta para provar que estive ausente do País durante 4 meses e ele disse que sou mentiroso, que aluguei a casa a alguém e agora não quero pagar. Fui falar com o Director comercial, expliquei a situação e ele mandou um técnico ir lá pra casa confirmar a leitura.
C 1 – …E como é que ficou? Estava marcado?
C 2 – O gajo mexeu no contador, mostrou uns números esquisitos que eu não percebi e disse que estava bem e que tinha de pagar… Voltei hoje para falar com o Director comercial outra vez e disse-lhe que se não resolvesse o meu problema, iria falar com o próprio Director da EMAE e até com o Ministro se fosse preciso. Sabes que ele me disse?! Que o máximo que podia fazer era perdoar uma parte e eu pagar a outra. Já viste como é que as coisas funcionam aqui na EMAE?
C 1 – Isso esta cada vez pior…Eu também as vezes noto que as facturas vêm com valores muito altos e sempre que reclamo, voltam a baixar o valor, as vezes sem ir confirmar no contador…Realmente essa EMAE é um bobo.
C 2 – É bobo ou são uns ladrões! Mandam as facturas aldrabadas e se um gajo não reclama, dão-te no lombo com a força toda. Se com essas falhas de energia a gente já paga tudo isso, imagina se a energia fosse 24 h sobre 24h? Aí é que estávamos todos “buiados”. Mesmo assim nunca têm dinheiro para pagar o gasóleo da ENCO.
C 1 – Por isso é que o País não arranca…Um gajo vai tratar de algum documento e há sempre problemas porque não há energia pra ligar o computador e o ar condicionado dos funcionários públicos. As empresas que não têm geradores próprios são constantemente lesadas no seu processo de produção e vêm os seus apanhar por tabela clientes por falta de energia eléctrica. Quem tem frigorifico em casa não pode comprar o peixe em quantidade quando está barato porque não dá para saber se vai ter energia ou não para conservar o peixe. As coitadas das palaiês as vezes têm que deixar o peixe estragar porque a própria fabrica de gelo as vezes também não tem energia. O meu filho mais velho estuda a noite e quase nunca tem aulas por falta de energia e por causa disso, duas colegas ja apanharam bariga. Um gajo nunca sabe qual dia que pode assistir ao telejornal ou a um jogo na TV pelo mesmo motivo. Sem falar que esses cortes constantes de energia e as oscilações da corrente dão cabo de todos os electrodomésticos em casa…
C 2 – Pois é, foi assim que o meu frigorifico foi a vida…Nem durou 2 anos. Até já sinto saudades de chegar a casa depois do trabalho e beber uma “fresquinha” a estalar…
C 1 – É melhor compadre contentar com a cerveja quente porque a coisa está cada vez pior.
C 2 – Eu sei…Já deu pra notar que ainda há um longo calvário a ser percorrido…Mas ouvi falar que estão a pensar construir mini barragens hídricas com ajuda do Brasil. É verdade isso?
C 1 – Também ouvi qualquer coisa sobre isso, mas sinceramente que não sei se não será mais um projecto que não passará do papel…Depois de tantos estudos, tantos projectos falhados, tantas expectativas frustradas até tenho medo de voltar a ter esperança para não voltar a ter desilusões…E depois um gajo já esta tão habituado a essa vida que já nem liga muito a isso. Se tiver agua, tomo banho no chuveiro e encho os baldes todos para guardar, se não tiver, vou com os miúdos buscar no chafariz. Se tiver luz, vejo televisão, a mulher engoma com ferro eléctrico e os miúdos podem brincar na rua a noite, se não houver energia, jantamos com luz de vela e vamos cedo para cama fazer “coisa”.
C 2 – Pois é….Eu como estou “sôle”, nem isso posso fazer…
C 1 – Tem calma que isso é temporário… E como é que fica a situação da factura? Compadre vai pagar ou vai tentar falar com o Director da EMAE?
C 2 – Nem sei...E se eles ficarem com raiva por eu ter procurado o Director e nunca mais me darem energia? Como já consegui eliminar uma metade se calhar pago esse um milhão assim mesmo e chamo Deus…
C 1 – Nada disso, não podemos cruzar os braços e dizer sempre “sim senhor” a esses bandidos…Se compadre tem a certeza que não deixou nada ligado para justificar os dois milhões da factura, tem que reclamar e gritar "quidalê" até ao Primeiro-ministro e o Presidente se for preciso. É por esse comodismo que nos encontramos nessa situação. Temos que aprender a reclamar quando as coisas não estão bem e a lutar pelos nossos direitos de uma vez por todas!
C 2 – Ohhhh…Compadre pareceu um político a falar…Sim senhor! Compadre devia vir comigo para ajudar-me a falar com o homem…
C 1 – Kéi, compadre acha? Pra cortarem a minha energia também? O problema é do compadre e é o compadre que em que resolver sozinho. Além disso já não dá tempo, tenho que voltar ao trabalho agora…
C 2 – Eu logo vi que essa conversa era só zôplo…Como sempre, falar é bonito, mas na hora de agir, é cada um por si, não é?
C 1 - ....
E lá seguiram os compadres, cada um pró seu lado, pensativos e acomodados às suas vidas medíocres…Tristemente acomodados.
sábado, 28 de fevereiro de 2009
PRESIDENCIALISMO!? PORQUE NÃO?
Em consequência dos últimos acontecimentos políticos em São Tomé e príncipe, veio a baila mais uma vez a velha questão do sistema de governo que mais se adapta à nossa realidade.
Naturalmente que se fizermos um exercício de reflexão sobre o que tem sido esses 18 anos do sistema Semi-presidencialista em STP (até 2003 com um pendor mais Presidencialista e depois com um pendor mais Parlamentarista), o resultado é catastrófico a todos os níveis, sendo que ainda não se conseguiu descortinar sem margem para duvidas se o mal está no próprio sistema, que não se adequa de todo à nossa realidade ou se está nos autores políticos que muitas vezes atropelam as normas instituídas, por incompetência, por negligencia ou por pura má fé.
Muitos afirmam peremptoriamente que o mal está nos nossos autores políticos, evocando o exemplo de outros Países que enveredaram pelo Semi-presidencialismo com resultados bastantes satisfatórios a nível do funcionamento e da coabitação entre os órgãos do poder político, esquecendo-se que, embora o sistema seja universal, cada País tem as suas particularidades próprias e temos que ter em conta vários factores que podem influenciar de forma significativa a boa implementação pratica dos “princípios teóricos” desse sistema de governo: A própria história do País e do seu povo, a cultura politica dos seus dirigentes, o nível de maturidade das instituições democráticas, a situação económica do País, o nível de alfabetização do seu povo, a competência e a clarividência dos seus políticos, a situação do sistema Judiciário, e.t.c, e.t.c
Outros defendem que dada a nossa “pequenez” em termos de território e de população, o sistema Semi-presidencialista não é o mais adequado e que muitos dos focos de instabilidade que têm assolado STP se deve a algumas lacunas que o sistema apresenta em termos de equilíbrio de poder entre os órgãos políticos.
A verdade é que, seja por culpa do sistema, seja por culpa dos politicos ou até por culpa dos dois, as coisas não têm funcionado a nivel da divisão de competencias e de poderes, e temos assistido nesses anos todos sucessivas crises políticas em resultado de "querelas" entre os orgãos de soberania que têm assassinado de forma implacável as esperanças de desenvolvimento do nosso São Tomé e Príncipe.
Já experimentamos o Presidencialismo totalitário e absolutista e o País não “arrancou”. Já experimentamos o Semi-presidencialismo com poderes alargados para o Presidente e o País voltou a não “arrancar”. Limitou-se os poderes do Presidente numa tentativa de “remediar” o sistema e o País teima em não “arrancar”. Tivemos Presidentes e Governos de diferentes quadrantes políticos e os “casamentos de conveniência” acabaram todos em divórcios litigiosos. Tivemos Presidentes e Governos do mesmo quadrante político (Trovoada/PCD e Fradique/MDFM) e a coisa voltou a não funcionar, caindo por terra o velho mito de que um Presidente e um Primeiro-ministro da mesma cor politica iriam se entender às mil maravilhas. Certamente que os problemas de São Tomé e Príncipe não se resumem apenas ao sistema de governo ou à qualidade (ou falta dela) dos seus políticos, mas creio que uma parte significativa desses problemas “desapareceriam” se conseguíssemos resolver a questão da má governação e dos desentendimentos entre os órgãos de soberania. O que fazer então?
Naturalmente que não conseguiremos mudar os autores políticos todos, pelo menos ao mesmo tempo, então talvez seja altura de experimentar uma mudança a nível do sistema de governo e nesse campo, devo confessar que pela primeira vez estou de acordo com o nosso Presidente: O Presidencialismo pode sim, ser uma saída viável. Não o sistema Presidencialista universal pré concebido, mas um sistema Presidencialista adaptado à nossa realidade de forma a não cairmos outra vez no equívoco de “importar” um sistema novo sem tentar ajusta-lo às particularidades do nosso País e do nosso povo.
Um Presidencialismo em que em termos gerais, o Presidente tivesse o poder executivo e fosse eleito para mandatos de 4 ou 5 anos renováveis, o Supremo tribunal, o poder judiciário em que os juízes fossem nomeados para um mandato único de 6 a 9 anos e o Congresso ou Parlamento, o poder legislativo com mandatos de 4 a 5 anos, sendo que o Presidente não podia dissolver o Congresso em hipótese alguma, cabendo essa prerrogativa ao poder Judiciário (dentro de normas a serem estabelecidas) e onde o congresso pudesse demitir o Presidente em situações de crime, abuso de poder ou violação das normas constitucionais.
Um Presidencialismo onde também fosse eleito um Vice-presidente, para que em caso de morte ou destituição do Presidente, o Vice seja chamado a levar o mandato até ao fim, sem ter necessidade de outras eleições (caso não seja acusado, também ele) e em que o Vice-presidente possa ocupar uma das pastas do gabinete do Presidente ou possa ser o Presidente do Congresso, para que a sua função não seja meramente decorativa.
Um Presidencialismo em que fosse eleito um Congresso ou Parlamento com um máximo de 31 Congressistas ou Deputados, em círculos plurinominais e em que os eleitos seriam funcionários públicos a tempo inteiro, bem renumerados e proibidos de exercer qualquer outra função pública ou privada.
Um Presidencialismo em que os candidatos aos cargos de Presidente, Vice-presidente e Deputado, fossem previamente escrutinados pelo Supremo Tribunal de justiça de forma a não termos “delinquentes” candidatos aos mais altos cargos públicos da nação; onde os indigitados para as pastas do Gabinete do Presidente passassem por um rigoroso processo de “crivagem” no Congresso de forma a evitar as ligações perigosas e o compadrio que se tem verificado nas relações entre o sector publico e o privado e onde todos os titulares de cargos públicos fossem obrigados a apresentar as suas declarações de rendimentos antes de assumir os respectivos cargos.
Um Presidencialismo onde fossem estabelecidas clausulas barreira no sistema eleitoral de forma a limitar a proliferação de partidos políticos, contribuindo para uma maior estabilidade interna e também fazer baixar o valor total das subvenções do estado aos partidos...
Acredito que, pelos motivos aqui evocados e por tudo mais, é chegada a hora de se debater seriamente a questão do sistema de governo em STP e embora seja a Assembleia Nacional o órgão constitucionalmente competente para o efeito, a sociedade civil e os restantes autores políticos não podem assistir a esse processo de braços cruzados, privando-se de se fazerem ouvir num tema tão importante para o futuro do nosso São Tomé e Príncipe.
domingo, 15 de fevereiro de 2009
CRONICA DE UM GOLPE DE ESTADO ANUNCIADO.
Mais uma vez acordamos um dia desses com notícias sobre um possível golpe de estado em São Tomé e Príncipe ou como se diz no “politiquês” corrente: A tentativa de inversão por via mais ou menos violenta da ordem constitucional no País.
Se a memoria não me atraiçoa, esta é a 5ª vez que tal fenómeno se verifica no São Tomé e Príncipe Democrático, sem contar com aquela brincadeira de mau gosto que o Afonso Costa protagonizou em 1986, no tempo do partido único, quando tentou “tomar” o País com duas dúzias de indivíduos em canoas de remos (ou será que eram a motor?) “armados até aos dentes” com machados, zagaias, “francotes” e uma ou duas armas de verdade, escudados na perícia militar de um ex – mercenário “búfalo” com nome de herói de banda desenhada. A diferença é que desta vez, ao que parece, os nossos serviços de informação (soa à Americano, não é?) lá descobriram a tempo a tramóia e impediram, até ver, aquela que seria a 5ª tentativa de golpe de Estado em STP em 18 anos de Democracia. Incrível! 4 Tentativas de golpe de Estado e 1 quase tentativa em 18 anos de Democracia. Há anos que andamos a competir ferozmente para o título de País com o maior o maior número de Primeiros-ministros e Ministros por m2, ao que parece, acabamos de lançar com algum mérito, a nossa candidatura ao titulo de País com o maior numero de tentativas de golpe de Estado por década.
Falo em tentativas, porque não passaram disso mesmo: Tentativas! Com maior ou menor alvoroço, com mais ou menos tiros disparados, com mais ou menos dirigentes sequestrados, tudo acaba em alguns dias e voltamos todos às nossas vidinhas com os donos do poder a permanecerem de pedra e cal nos seus tronos, como se nada se tivesse passado, não se verificando na pratica a tal “inversão da ordem constitucional no País”. Tudo fica resolvido depois de decretadas as amnistias gerais da praxe para os “delinquentes” e assinados os famosos memorandos de entendimentos, onde se define a atribuição de algumas benesses aos cabecilhas da quadrilha, como compensação por terem abdicado do poder temporariamente conquistado, uma espécie de indemnização por potenciais danos patrimoniais, que vão desde parcelas de terra, casas, carros à bolsas de estudos no exterior, fazendo assim prevalecer a velha máxima de que o crime compensa ou melhor, tentar dar golpe de Estado em STP, compensa bué!
Por tudo isso, não me espanta que sejamos outra vez confrontados com essa realidade e muito menos me espanta que estejamos na presença de "alunos" repetentes, que mais uma vez, carregando a bandeira dos fracos e oprimidos, vêm se escudar na defesa dos interesses do povo para desestabilizar as instituições publicas, esperando como sempre, colher dividendos nas negociações futuras, com o beneplácito da comunidade internacional. Se lhes correu tão bem em 2003, porque razão esperariam um cenário diferente desta vez? É esse o resultado das políticas de “mão branda” para quem atenta de forma tão grave contra a autoridade do estado que se tem vindo a praticar em STP. É esse o resultado da ausência de punições exemplares nas outras vezes em que nos vimos nas mãos desses mesmos infractores, por receio de sei lá o quê, com medo de sei lá quem. Enquanto a justiça em STP continuar a passar essa imagem de impotência e inoperância, enquanto a autoridade do Estado não for reposta de forma afirmativa e inequívoca, não me parece que essa seja última vez em que nos deparamos com situações destas.
Resta-nos aguardar as cenas dos próximos capítulos, para confirmarmos se realmente estamos perante uma tentativa fracassada de golpe de Estado e neste caso, esperar uma reacção nada benevolente por parte dos órgãos da justiça São-tomenses ou se estamos na presença de uma operação de fachada montada de forma “hollywoodesca” para salvaguardar alguns interesses económicos de um grupo de pessoas, como muitos sugerem, por causa da questão dos terrenos da lagoa azul e do tal casino ilegal que funcionava a vista de todos, com a devida conivência dos órgãos de justiça de STP e só agora foi fechado. Quem viver, verá!
Se a memoria não me atraiçoa, esta é a 5ª vez que tal fenómeno se verifica no São Tomé e Príncipe Democrático, sem contar com aquela brincadeira de mau gosto que o Afonso Costa protagonizou em 1986, no tempo do partido único, quando tentou “tomar” o País com duas dúzias de indivíduos em canoas de remos (ou será que eram a motor?) “armados até aos dentes” com machados, zagaias, “francotes” e uma ou duas armas de verdade, escudados na perícia militar de um ex – mercenário “búfalo” com nome de herói de banda desenhada. A diferença é que desta vez, ao que parece, os nossos serviços de informação (soa à Americano, não é?) lá descobriram a tempo a tramóia e impediram, até ver, aquela que seria a 5ª tentativa de golpe de Estado em STP em 18 anos de Democracia. Incrível! 4 Tentativas de golpe de Estado e 1 quase tentativa em 18 anos de Democracia. Há anos que andamos a competir ferozmente para o título de País com o maior o maior número de Primeiros-ministros e Ministros por m2, ao que parece, acabamos de lançar com algum mérito, a nossa candidatura ao titulo de País com o maior numero de tentativas de golpe de Estado por década.
Falo em tentativas, porque não passaram disso mesmo: Tentativas! Com maior ou menor alvoroço, com mais ou menos tiros disparados, com mais ou menos dirigentes sequestrados, tudo acaba em alguns dias e voltamos todos às nossas vidinhas com os donos do poder a permanecerem de pedra e cal nos seus tronos, como se nada se tivesse passado, não se verificando na pratica a tal “inversão da ordem constitucional no País”. Tudo fica resolvido depois de decretadas as amnistias gerais da praxe para os “delinquentes” e assinados os famosos memorandos de entendimentos, onde se define a atribuição de algumas benesses aos cabecilhas da quadrilha, como compensação por terem abdicado do poder temporariamente conquistado, uma espécie de indemnização por potenciais danos patrimoniais, que vão desde parcelas de terra, casas, carros à bolsas de estudos no exterior, fazendo assim prevalecer a velha máxima de que o crime compensa ou melhor, tentar dar golpe de Estado em STP, compensa bué!
Por tudo isso, não me espanta que sejamos outra vez confrontados com essa realidade e muito menos me espanta que estejamos na presença de "alunos" repetentes, que mais uma vez, carregando a bandeira dos fracos e oprimidos, vêm se escudar na defesa dos interesses do povo para desestabilizar as instituições publicas, esperando como sempre, colher dividendos nas negociações futuras, com o beneplácito da comunidade internacional. Se lhes correu tão bem em 2003, porque razão esperariam um cenário diferente desta vez? É esse o resultado das políticas de “mão branda” para quem atenta de forma tão grave contra a autoridade do estado que se tem vindo a praticar em STP. É esse o resultado da ausência de punições exemplares nas outras vezes em que nos vimos nas mãos desses mesmos infractores, por receio de sei lá o quê, com medo de sei lá quem. Enquanto a justiça em STP continuar a passar essa imagem de impotência e inoperância, enquanto a autoridade do Estado não for reposta de forma afirmativa e inequívoca, não me parece que essa seja última vez em que nos deparamos com situações destas.
Resta-nos aguardar as cenas dos próximos capítulos, para confirmarmos se realmente estamos perante uma tentativa fracassada de golpe de Estado e neste caso, esperar uma reacção nada benevolente por parte dos órgãos da justiça São-tomenses ou se estamos na presença de uma operação de fachada montada de forma “hollywoodesca” para salvaguardar alguns interesses económicos de um grupo de pessoas, como muitos sugerem, por causa da questão dos terrenos da lagoa azul e do tal casino ilegal que funcionava a vista de todos, com a devida conivência dos órgãos de justiça de STP e só agora foi fechado. Quem viver, verá!
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
REFLEXÕES SOLTAS I - EUTANASIA v.s CASAMENTO HOMOSSEXUAL
Ao lerem o título desta crónica, naturalmente que vos vem a cabeça perguntas do tipo: Que raio tem a ver uma coisa com a outra? O quê que o suicídio assistido tem a ver com a legitimação perante a lei dos homens de uma relação amorosa entre duas pessoas do mesmo sexo? Talvez nada. Talvez tudo.
A abordagem simultânea que faço a dois temas tão distintos e polémicos nas sociedades actuais não é de todo inocente. Numa semana em que acompanhamos a situação de Eluana Englaro, uma mulher Italiana que após 17 anos ligada às maquinas em estado vegetativo e 10 anos de infindáveis batalhas politicas, religiosas e judiciais, viu finalmente confirmado pelo supremo tribunal Italiano “o seu direito à morte assistida” e onde ficamos a conhecer a intenção do secretário-geral do PS e Primeiro ministro de Portugal, José Sócrates, em levar ao congresso do seu partido uma moção de orientação política onde propõe "a remoção de barreiras jurídicas à celebração do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo”, dei comigo a pensar seriamente nesses dois assuntos sérios, assistindo as discussões infindáveis que esses temas fracturantes normalmente fazem eclodir nas sociedades de hoje e observando mais uma vez as ligações perigosas que ainda persistem entre a politica e a religião. Como normalmente faço nas poucas vezes que penso seria e profundamente em algum assunto serio, vesti a pele das partes interessadas e cheguei à conclusões “interessantes”:
1 – Se eu fosse um gay ou uma lésbica, de certeza que me agradaria muito poder usufruir do direito que qualquer pessoa tem nas sociedades civilizadas de se casar com quem bem lhe apetecer, seja por amor, pela atracão física ou até mesmo pela atracção financeira.
2 – Se eu estivesse confinado a uma cama de hospital durante alguns anos, como consequência de um azar qualquer que tivesse na vida (toc, toc na madeira) ligado às maquinas em estado vegetativo, sem esperanças de recuperação e aguardando pacientemente o dia da minha morte, toda a minha alma agradeceria profundamente à pessoa que generosamente pusesse fim a esse sofrimento e acabasse com o desgaste físico e mental a que estaria sujeito, “libertando” também a minha família e amigos mais próximos desta pesada cruz.
3 – Se eu fosse um politico populista numa sociedade conservadora, um membro efectivo ou simples adepto ferrenho de uma qualquer religião, apegado aos dogmas bíblicos ou apenas um cidadão tacanho que se recusa a aceitar as mudanças sociais que têm acontecido no nosso dia-a-dia, com certeza que abominaria a ideia de duas pessoas do mesmo sexo poderem ver a sua situação de união “anormal” amparada nos braços da lei.
4 – Se eu continuasse a ser o mesmo politico populista numa sociedade conservadora, o mesmo membro ou praticante ferrenho de uma qualquer religião, de certeza absoluta que defenderia solenemente a premissa suprema de que só devemos deixar esse mundo quando e como o SENHOR entender e nunca antes da altura “marcada” e muito menos por interferência de outro qualquer pecador. Ah, se eu tivesse um familiar próximo ou um amigo chegado confinado a uma cama de hospital, ligado a uma máquina sem hipóteses de recuperação, de certeza que travaria dentro de mim uma luta acesa entre o “aceitar” que se terminasse com o seu sofrimento, mesmo a pedido dele e o “lutar” para que ele se mantivesse vivo, mesmo em situação precária, apenas para suprir o desejo egoísta que todos temos de querer ter as pessoas que nos são queridas perto de nós e entre nós.
Como sempre acontece quando nos “metemos” na pele dos interessados em questões de consciência, acabamos por não chegar a conclusão nenhuma, porque cada um tem os seus motivos, as suas crenças, os seus interesses e as suas próprias experiencias para sustentar o seu ponto de vista ou a sua intransigência. Eu pessoalmente acho que nas duas situações em análise, por se tratar de questões de consciência, acima das politiquices e dos dogmas caducados da igreja, devia prevalecer o nosso livre arbítrio, sustentado naturalmente na premissa maior de que “ a nossa liberdade termina onde começa a do outro”. Podemos não concordar com o casamento homossexual, ou melhor, podemos até não achar muita piada à relação homossexual em si, mas temos que aceita-la como facto consumado nos dias que correm e respeitar os que seguiram por essa via. Podemos achar eticamente imperdoável que uma pessoa em qualquer circunstancia possa por fim a sua própria vida ou pedir a outros que o façam por ela, mas temos que entender que há momentos especiais na vida em que a própria vida torna-se sofrida e sem significado, por isso temos que aceitar e respeitar que o “dono” dessa vida decida acabar com ela como forma de por fim ao seu sofrimento.
Naturalmente que não defendo o livre arbítrio cego e desgovernado, porque como seres sociáveis, não seriam raras as situações em que o nosso livre arbítrio fatalmente acabaria por entrar em colisão com os direitos de outrem ou com as regras instituídas, logo, nos dois assuntos em questão, caberia aos políticos, deixarem de lado a hipocrisia e definir as regras que levassem as pessoas a poderem optar por aquilo que mais lhes conviesse em cada um dos casos. Se é ponto assente que cada vez mais há casais homossexuais assumidos, se muitos inclusive já começam a “juntar os trapinhos”, porque não lhes dar o direito de ver essa relação reconhecida perante a lei? Se há casos de pessoas em estado vegetativo que acabam por falecer repentinamente em circunstancias obscuras, por conta da piedade de um medico ou enfermeiro, porque não permitir de uma vez por todas que essas pessoas tenham um final de vida digno? Por que não definir regras para evitar os equívocos que as vezes acontecem e que custam a vida de muitos que se calhar foram mal diagnosticados e careciam de uma segunda opinião competente? Porque continuar a tapar o sol com a peneira e fazer de conta que nada se passa?
Foi assim na questão do aborto, que mesmo proibido por uma lei conservadora e moralista, acontecia em cada clínica clandestina desse País em condições precárias e continua a acontecer em cada clínica clandestina desse mundo fora, nos Países onde os políticos ainda não foram “iluminados” para perceberem que a melhor solução para esse fenómeno é a sua legalização e o estabelecimento de programas de informação e acolhimento para evitar as milhares de mortes e os inúmeros problemas que padecem as mulheres que recorrem a esses lugares.
È assim na questão da prostituição, que mesmo “proibida”, continua a proliferar em cada cidade e bairro desse País, enriquecendo pessoas de má índole e permitindo também o aumento de “mazelas” sociais como o tráfico de mulheres, o tráfico de droga e as doenças sexualmente transmissíveis. Todos sabem que a prostituição existe, deparamos com ela nas páginas dos classificados dos jornais, nas ruas, em bares de alternes e em casas de striptease, então porque não legalizá-la de uma vez por todas? Porque não transformar essas mulheres e homens em trabalhadores honrados que cumpram com as suas obrigações fiscais como todos os outros contribuintes? Porque não regulamentar o sector de forma a acabar com os “chulos” e instaurar a obrigatoriedade da inspecção médica?
Pese embora os conflitos de ordem moral que possam existir nas questões que frisei, penso que seria de todo útil que houvesse coragem politica para regulamentar aquelas situações que temos como casos consumados, de forma a evitar que as pessoas continuem a agir fora dos braços da lei e permitir que cada um possa optar por aquilo que quer, de acordo com a sua consciência.
Legalizou-se o aborto e quem é contra o aborto pode continuar a ser contra, resguardado nos seus princípios éticos, mas deu-se hipótese aos que são a favor de poderem optar por uma saída segura. Legalize-se então o casamento homossexual e a eutanásia. Os que são contra, poderão continuar a ser contra, bastando que se abstenham de exercer esses direitos, mas ao menos daremos aos que estão a favor o direito de poderem optar sem estar a cometer nenhum tipo de crime. Creio ser esta, a essência da cidadania.
A abordagem simultânea que faço a dois temas tão distintos e polémicos nas sociedades actuais não é de todo inocente. Numa semana em que acompanhamos a situação de Eluana Englaro, uma mulher Italiana que após 17 anos ligada às maquinas em estado vegetativo e 10 anos de infindáveis batalhas politicas, religiosas e judiciais, viu finalmente confirmado pelo supremo tribunal Italiano “o seu direito à morte assistida” e onde ficamos a conhecer a intenção do secretário-geral do PS e Primeiro ministro de Portugal, José Sócrates, em levar ao congresso do seu partido uma moção de orientação política onde propõe "a remoção de barreiras jurídicas à celebração do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo”, dei comigo a pensar seriamente nesses dois assuntos sérios, assistindo as discussões infindáveis que esses temas fracturantes normalmente fazem eclodir nas sociedades de hoje e observando mais uma vez as ligações perigosas que ainda persistem entre a politica e a religião. Como normalmente faço nas poucas vezes que penso seria e profundamente em algum assunto serio, vesti a pele das partes interessadas e cheguei à conclusões “interessantes”:
1 – Se eu fosse um gay ou uma lésbica, de certeza que me agradaria muito poder usufruir do direito que qualquer pessoa tem nas sociedades civilizadas de se casar com quem bem lhe apetecer, seja por amor, pela atracão física ou até mesmo pela atracção financeira.
2 – Se eu estivesse confinado a uma cama de hospital durante alguns anos, como consequência de um azar qualquer que tivesse na vida (toc, toc na madeira) ligado às maquinas em estado vegetativo, sem esperanças de recuperação e aguardando pacientemente o dia da minha morte, toda a minha alma agradeceria profundamente à pessoa que generosamente pusesse fim a esse sofrimento e acabasse com o desgaste físico e mental a que estaria sujeito, “libertando” também a minha família e amigos mais próximos desta pesada cruz.
3 – Se eu fosse um politico populista numa sociedade conservadora, um membro efectivo ou simples adepto ferrenho de uma qualquer religião, apegado aos dogmas bíblicos ou apenas um cidadão tacanho que se recusa a aceitar as mudanças sociais que têm acontecido no nosso dia-a-dia, com certeza que abominaria a ideia de duas pessoas do mesmo sexo poderem ver a sua situação de união “anormal” amparada nos braços da lei.
4 – Se eu continuasse a ser o mesmo politico populista numa sociedade conservadora, o mesmo membro ou praticante ferrenho de uma qualquer religião, de certeza absoluta que defenderia solenemente a premissa suprema de que só devemos deixar esse mundo quando e como o SENHOR entender e nunca antes da altura “marcada” e muito menos por interferência de outro qualquer pecador. Ah, se eu tivesse um familiar próximo ou um amigo chegado confinado a uma cama de hospital, ligado a uma máquina sem hipóteses de recuperação, de certeza que travaria dentro de mim uma luta acesa entre o “aceitar” que se terminasse com o seu sofrimento, mesmo a pedido dele e o “lutar” para que ele se mantivesse vivo, mesmo em situação precária, apenas para suprir o desejo egoísta que todos temos de querer ter as pessoas que nos são queridas perto de nós e entre nós.
Como sempre acontece quando nos “metemos” na pele dos interessados em questões de consciência, acabamos por não chegar a conclusão nenhuma, porque cada um tem os seus motivos, as suas crenças, os seus interesses e as suas próprias experiencias para sustentar o seu ponto de vista ou a sua intransigência. Eu pessoalmente acho que nas duas situações em análise, por se tratar de questões de consciência, acima das politiquices e dos dogmas caducados da igreja, devia prevalecer o nosso livre arbítrio, sustentado naturalmente na premissa maior de que “ a nossa liberdade termina onde começa a do outro”. Podemos não concordar com o casamento homossexual, ou melhor, podemos até não achar muita piada à relação homossexual em si, mas temos que aceita-la como facto consumado nos dias que correm e respeitar os que seguiram por essa via. Podemos achar eticamente imperdoável que uma pessoa em qualquer circunstancia possa por fim a sua própria vida ou pedir a outros que o façam por ela, mas temos que entender que há momentos especiais na vida em que a própria vida torna-se sofrida e sem significado, por isso temos que aceitar e respeitar que o “dono” dessa vida decida acabar com ela como forma de por fim ao seu sofrimento.
Naturalmente que não defendo o livre arbítrio cego e desgovernado, porque como seres sociáveis, não seriam raras as situações em que o nosso livre arbítrio fatalmente acabaria por entrar em colisão com os direitos de outrem ou com as regras instituídas, logo, nos dois assuntos em questão, caberia aos políticos, deixarem de lado a hipocrisia e definir as regras que levassem as pessoas a poderem optar por aquilo que mais lhes conviesse em cada um dos casos. Se é ponto assente que cada vez mais há casais homossexuais assumidos, se muitos inclusive já começam a “juntar os trapinhos”, porque não lhes dar o direito de ver essa relação reconhecida perante a lei? Se há casos de pessoas em estado vegetativo que acabam por falecer repentinamente em circunstancias obscuras, por conta da piedade de um medico ou enfermeiro, porque não permitir de uma vez por todas que essas pessoas tenham um final de vida digno? Por que não definir regras para evitar os equívocos que as vezes acontecem e que custam a vida de muitos que se calhar foram mal diagnosticados e careciam de uma segunda opinião competente? Porque continuar a tapar o sol com a peneira e fazer de conta que nada se passa?
Foi assim na questão do aborto, que mesmo proibido por uma lei conservadora e moralista, acontecia em cada clínica clandestina desse País em condições precárias e continua a acontecer em cada clínica clandestina desse mundo fora, nos Países onde os políticos ainda não foram “iluminados” para perceberem que a melhor solução para esse fenómeno é a sua legalização e o estabelecimento de programas de informação e acolhimento para evitar as milhares de mortes e os inúmeros problemas que padecem as mulheres que recorrem a esses lugares.
È assim na questão da prostituição, que mesmo “proibida”, continua a proliferar em cada cidade e bairro desse País, enriquecendo pessoas de má índole e permitindo também o aumento de “mazelas” sociais como o tráfico de mulheres, o tráfico de droga e as doenças sexualmente transmissíveis. Todos sabem que a prostituição existe, deparamos com ela nas páginas dos classificados dos jornais, nas ruas, em bares de alternes e em casas de striptease, então porque não legalizá-la de uma vez por todas? Porque não transformar essas mulheres e homens em trabalhadores honrados que cumpram com as suas obrigações fiscais como todos os outros contribuintes? Porque não regulamentar o sector de forma a acabar com os “chulos” e instaurar a obrigatoriedade da inspecção médica?
Pese embora os conflitos de ordem moral que possam existir nas questões que frisei, penso que seria de todo útil que houvesse coragem politica para regulamentar aquelas situações que temos como casos consumados, de forma a evitar que as pessoas continuem a agir fora dos braços da lei e permitir que cada um possa optar por aquilo que quer, de acordo com a sua consciência.
Legalizou-se o aborto e quem é contra o aborto pode continuar a ser contra, resguardado nos seus princípios éticos, mas deu-se hipótese aos que são a favor de poderem optar por uma saída segura. Legalize-se então o casamento homossexual e a eutanásia. Os que são contra, poderão continuar a ser contra, bastando que se abstenham de exercer esses direitos, mas ao menos daremos aos que estão a favor o direito de poderem optar sem estar a cometer nenhum tipo de crime. Creio ser esta, a essência da cidadania.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
E SE O OBAMA FOSSE BRANCO?
O mundo “parou” para assistir a cerimónia de tomada de posse de Barack Obama como o 44º Presidente dos EUA. Das aldeias do interior de África, passando pelas grandes cidades e pelos locais mais recônditos da Ásia, Europa, América do Sul e Austrália, um mar de gente colou-se à Tv na hora do juramento solene de Obama, levando a que fosse batido alguns recordes de audiência em muitos Países, coisa que alias já acontecera na noite da sua vitoria eleitoral. Outro recorde foi batido em Washington onde quase dois milhões de pessoas, enfrentando temperaturas adversas e um dispositivo de segurança sem precedente, assistiram ao vivo esse momento histórico, coisa nunca antes vista nas anteriores cerimónias de tomada de posse de outros Presidentes, incluindo a de Kennedy, um dos mais queridos e populares Presidentes que já passou pela casa branca, o que veio dar razão à aqueles que consideram Barack Obama como o primeiro Presidente global da historia da humanidade.
Muitas questões se levantam quando ousamos analisar esse fenómeno de popularidade e essa onda de esperança que parece varrer o nosso planeta de Norte a Sul desde a eleição de Obama, mas há uma que fatalmente teima em ter primazia sobre as outras: Será que todo esse optimismo, toda essa esperança na mudança, toda essa mobilização internacional e todo esse “quase endeusamento” da figura de Barack Obama se deve tão-somente ao facto de ele ser o primeiro Presidente negro da história dos EUA? Pondo a questão de outra forma: E se o Obama fosse branco, como seria então?
Mia Couto, escritor Moçambicano e um dos maiores vultos das letras no mundo lusófono escreveu há tempos um interessante texto sobre o improvável aparecimento de um Barack Obama em Africa, elencando com a mestria habitual os variados obstáculos que se apresentariam no caminho de qualquer Africano que se atrevesse a mostrar uma nova via de esperança ao seu povo que os levasse a afirmar em uníssono: Yes, we can!
Permita-me o Mia Couto que eu dê um torcicolo no “pescoço” da ideia base com que cimentou o seu texto e faça aqui um exercício de reflexão baseado na hipótese que atrás sugeri:
E SE O OBAMA FOSSE BRANCO?
E se por um passe de magia pudéssemos substituir o progenitor do presidente Obama por um homem Branco? Tanto fazia que esse Barack sénior fosse um Europeu ou um Americano branco, o importante nesta reflexão é ressalvar o tom de pele clara com que nasceria o Obama imaginário, sendo que manteríamos exactamente iguais todos os outros aspectos da sua vida, desde a sua educação, a ausência do pai, o seu percurso académico e politico, o seu carácter, os seus sonhos, os seus dotes de orador e.t.c, trazendo também a baila, naturalmente uma Michelle Obama branca. Será que na conjuntura em que o Obama negro chegou à presidência dos EUA, um Obama branco também o conseguiria? E mais ainda, um Obama branco, o conseguiria da forma tão espectacular e galvanizadora como aconteceu? Ser-lhe-iam também depositadas tamanhas expectativas e esperanças?
Naturalmente que não farei a analogia entre o Obama negro e o Obama Branco desde o seu nascimento, porque como ressalvei no parágrafo anterior, esse exercício pretende apenas mostrar o meu ponto de vista sobre a importância da questão racial no estrondoso sucesso politico da figura de Barack Obama. Portanto, partindo da hipótese de que o Barack Obama Branco teria as mesmas oportunidades, restrições e sonhos do Barack Obama negro e tivesse vivido de forma exactamente igual, vou situar temporalmente o principio da minha reflexão no ano de 2004, altura em que Obama começou a despontar para a politica a nível Nacional.
Se o Obama fosse branco, mesmo sendo um excelente orador e tendo já na altura vencido as eleições primarias do partido Democrático no estado do Illinois, talvez não seria convidado pelo John Kerry a fazer o discurso de abertura na convenção democrática de 2004 e logo perderia a hipótese de se projectar a nível nacional e de viver o momento mais marcante da sua curta carreira politica. Lembro-vos que na altura, o partido democrático procurava uma “cara” nova e fresca, de preferência um representante das minorias étnicas e por esta premissa, o nosso Obama branco talvez não despertasse a curiosidade dos barões do partido Democrático.
Se o Obama fosse branco, talvez fosse também eleito Senador pelo estado do Illimois, visto que essa eleição foi ganha com um enorme contributo do factor sorte que sempre protege os audazes. O adversário do Obama negro nas primarias democráticas e também o Republicano nas eleições gerais retiraram as suas candidaturas por se verem envolvidos em escândalos sexuais que foram revelados pela imprensa semanas antes do dia das respectivas eleições, o que abriu caminho a vitoria de Obama com quase 70% dos votos. Mesmo assim, a vitória do Obama branco no Illinois seria algo normal e não teria despertado tanta curiosidade nos média que começaram a interessar-se de forma tão intensa pelo Obama negro pelo facto de se ter tornado na altura “apenas” o 3º negro a ser eleito para o Senado em toda a historia dos EUA. Logo, o Obama branco não seria alvo do proteccionismo dos meios de comunicação social que tanto jeito deu ao Obama negro, não teria despertado a curiosidade dos Americanos de forma tão abragente e talvez nem a revista "Time" vaticinasse em 2006 que ele seria um dia o Presidente dos EUA.
Se o Obama fosse branco, talvez não ousasse lançar a sua candidatura à presidência dos EUA depois de ter passado apenas dois anos como Senador dos EUA, até porque pelos motivos atrás referidos, naquela altura não gozaria de certeza da projecção nacional que o Obama negro tinha nos media para contrariar a sua falta de experiencia e também não teria sofrido as pressões de alguns notaveis do partido para avançar de imediato. E se por acaso mesmo assim, ele avançasse para a “luta”, não teria nenhuma hipótese de derrotar a super favorita Hillary Clinton e seria dizimado como o foram os restantes candidatos considerados “normais” por um eleitorado ávido por algo novo e realmente diferente. Além da vantagem do dinheiro, do apoio dos lobies e da cúpula do partido Democrático, Hillary Clinton não teria ninguém que disputasse com ela um lugar na historia, visto que se desenharia a hipótese de pela primeira vez, uma mulher vir a ser nomeada candidata presidencial pelo partido Democrático e sem ter um negro como contra-peso para baralhar as contas finais, como fez o Obama negro, os Democratas de certeza que não deixariam passar essa oportunidade, atendendo também ao facto da maioria dos eleitores serem do sexo feminino.
Se o Obama fosse Branco e por obra de forças sobrenaturais ou de uma conjuntura especial, derrotasse a senadora Hillary Clinton nas primárias democráticas, talvez pudesse também derrotar o Republicano McCain nas eleições de 4 de Novembro, aproveitando o desastre Sarah Palin e a crise financeira que eclodiu em Wall street, tendo em conta que o povo Americano tendencialmente prefere os Democratas aos Republicanos em assuntos económicos, mas de certeza absoluta que estas eleições deixariam de ser tão “especiais”, tão comentadas, tão participativas e tão expectantes para os Americanos e para o resto do mundo. Poderia causar alguma curiosidade o facto de o McCain ter escolhido uma mulher para Vice-presidente, mas isso já não seria algo novo e poderíamos todos estar ansiosos por conhecer o substituto do W. Bush, mas não “beberíamos” as eleições como o fizemos e nem tomaríamos partido de forma tão desavergonhada e afirmativa como o fizemos pelo Obama negro.
Porque se o Obama fosse branco, não teria a sua história de vida singular para apresentar ao eleitorado fazendo sonhar os mais desfavorecidos, enfatizando a realidade de qualquer um conseguir ser tudo o que quiser nos EUA, mesmo nascendo pobre, sendo de uma minoria étnica e tendo um nome esquisito. Não quebraria a barreira racial e não mostraria ao mundo que a América realmente está a mudar e esta a ultrapassar os traumas do passado que tantas complicações tem causado aos Americanos. O Obama branco, mesmo defendendo os mesmos ideais, mesmo assumindo as mesmas opções politicas estratégicas, não teria o peso da história para sustentar a verdadeira mudança que o Obama negro encarnava e se calhar não reuniria tantas afinidades de quadrantes tão diferentes do complexo mosaico cultural Americano que a certa altura quase que decidiram apostar no ar simpático e na experiencia do velho MacCain.
Será então que o Obama negro é hoje o “nosso” Obama apenas por ser negro?
Naturalmente que não, mas sobretudo por o ser.
O Homem tem carisma, é inteligente, bem parecido, tem sentido de liderança, é excelente orador, pensa pela sua cabeça e tem tido a “estrelinha da sorte” em algumas ocasiões da sua vida, mas tenho quase a certeza de que a sua súbita ascensão politica e a repercussão que teve a sua eleição no mundo inteiro só foi possível porque depois do desastre que foi a administração Bush, estávamos todos ávidos de uma mudança a sério e o tom de pele mais escura do Obama despertou numa esmagadora maioria o sentimento de curiosidade por um cenario nunca antes experimentado e a esperança de que a aposta na novidade e no implausivel poderia ser a unica solução na conjuntura actual para tirar a America da situação em que se encontra. Se é verdade que a cor da sua pele teve papel preponderante na sua ascensão ao cargo de homem mais poderoso do planeta, não é menos verdade que o que contará daqui para frente será a sua competência, o seu bom senso, o seu sentido de estado, a sua inteligência, a sua capacidade em escolher bem e ter pulso sobre a sua equipa e a sua visão estratégica para a América e o mundo de forma a poder deixa-lo um pouco melhor do que o encontrou e embora ainda seja muito cedo, já deu para ver em apenas dois dias de governação que Barack Hussein Obama é totalmente merecedor das altas expectativas mundiais que pesam sobre as suas costas e se nada de muito excepcional acontecer, irá cumprir de forma brilhante o destino para o qual, acredito eu, foi fadado. Que Deus dê vida longa aos seus inimigos, para que assistam de pé às suas vitorias!
Queluz, 22 de Janeiro de 2009-01-23
Muitas questões se levantam quando ousamos analisar esse fenómeno de popularidade e essa onda de esperança que parece varrer o nosso planeta de Norte a Sul desde a eleição de Obama, mas há uma que fatalmente teima em ter primazia sobre as outras: Será que todo esse optimismo, toda essa esperança na mudança, toda essa mobilização internacional e todo esse “quase endeusamento” da figura de Barack Obama se deve tão-somente ao facto de ele ser o primeiro Presidente negro da história dos EUA? Pondo a questão de outra forma: E se o Obama fosse branco, como seria então?
Mia Couto, escritor Moçambicano e um dos maiores vultos das letras no mundo lusófono escreveu há tempos um interessante texto sobre o improvável aparecimento de um Barack Obama em Africa, elencando com a mestria habitual os variados obstáculos que se apresentariam no caminho de qualquer Africano que se atrevesse a mostrar uma nova via de esperança ao seu povo que os levasse a afirmar em uníssono: Yes, we can!
Permita-me o Mia Couto que eu dê um torcicolo no “pescoço” da ideia base com que cimentou o seu texto e faça aqui um exercício de reflexão baseado na hipótese que atrás sugeri:
E SE O OBAMA FOSSE BRANCO?
E se por um passe de magia pudéssemos substituir o progenitor do presidente Obama por um homem Branco? Tanto fazia que esse Barack sénior fosse um Europeu ou um Americano branco, o importante nesta reflexão é ressalvar o tom de pele clara com que nasceria o Obama imaginário, sendo que manteríamos exactamente iguais todos os outros aspectos da sua vida, desde a sua educação, a ausência do pai, o seu percurso académico e politico, o seu carácter, os seus sonhos, os seus dotes de orador e.t.c, trazendo também a baila, naturalmente uma Michelle Obama branca. Será que na conjuntura em que o Obama negro chegou à presidência dos EUA, um Obama branco também o conseguiria? E mais ainda, um Obama branco, o conseguiria da forma tão espectacular e galvanizadora como aconteceu? Ser-lhe-iam também depositadas tamanhas expectativas e esperanças?
Naturalmente que não farei a analogia entre o Obama negro e o Obama Branco desde o seu nascimento, porque como ressalvei no parágrafo anterior, esse exercício pretende apenas mostrar o meu ponto de vista sobre a importância da questão racial no estrondoso sucesso politico da figura de Barack Obama. Portanto, partindo da hipótese de que o Barack Obama Branco teria as mesmas oportunidades, restrições e sonhos do Barack Obama negro e tivesse vivido de forma exactamente igual, vou situar temporalmente o principio da minha reflexão no ano de 2004, altura em que Obama começou a despontar para a politica a nível Nacional.
Se o Obama fosse branco, mesmo sendo um excelente orador e tendo já na altura vencido as eleições primarias do partido Democrático no estado do Illinois, talvez não seria convidado pelo John Kerry a fazer o discurso de abertura na convenção democrática de 2004 e logo perderia a hipótese de se projectar a nível nacional e de viver o momento mais marcante da sua curta carreira politica. Lembro-vos que na altura, o partido democrático procurava uma “cara” nova e fresca, de preferência um representante das minorias étnicas e por esta premissa, o nosso Obama branco talvez não despertasse a curiosidade dos barões do partido Democrático.
Se o Obama fosse branco, talvez fosse também eleito Senador pelo estado do Illimois, visto que essa eleição foi ganha com um enorme contributo do factor sorte que sempre protege os audazes. O adversário do Obama negro nas primarias democráticas e também o Republicano nas eleições gerais retiraram as suas candidaturas por se verem envolvidos em escândalos sexuais que foram revelados pela imprensa semanas antes do dia das respectivas eleições, o que abriu caminho a vitoria de Obama com quase 70% dos votos. Mesmo assim, a vitória do Obama branco no Illinois seria algo normal e não teria despertado tanta curiosidade nos média que começaram a interessar-se de forma tão intensa pelo Obama negro pelo facto de se ter tornado na altura “apenas” o 3º negro a ser eleito para o Senado em toda a historia dos EUA. Logo, o Obama branco não seria alvo do proteccionismo dos meios de comunicação social que tanto jeito deu ao Obama negro, não teria despertado a curiosidade dos Americanos de forma tão abragente e talvez nem a revista "Time" vaticinasse em 2006 que ele seria um dia o Presidente dos EUA.
Se o Obama fosse branco, talvez não ousasse lançar a sua candidatura à presidência dos EUA depois de ter passado apenas dois anos como Senador dos EUA, até porque pelos motivos atrás referidos, naquela altura não gozaria de certeza da projecção nacional que o Obama negro tinha nos media para contrariar a sua falta de experiencia e também não teria sofrido as pressões de alguns notaveis do partido para avançar de imediato. E se por acaso mesmo assim, ele avançasse para a “luta”, não teria nenhuma hipótese de derrotar a super favorita Hillary Clinton e seria dizimado como o foram os restantes candidatos considerados “normais” por um eleitorado ávido por algo novo e realmente diferente. Além da vantagem do dinheiro, do apoio dos lobies e da cúpula do partido Democrático, Hillary Clinton não teria ninguém que disputasse com ela um lugar na historia, visto que se desenharia a hipótese de pela primeira vez, uma mulher vir a ser nomeada candidata presidencial pelo partido Democrático e sem ter um negro como contra-peso para baralhar as contas finais, como fez o Obama negro, os Democratas de certeza que não deixariam passar essa oportunidade, atendendo também ao facto da maioria dos eleitores serem do sexo feminino.
Se o Obama fosse Branco e por obra de forças sobrenaturais ou de uma conjuntura especial, derrotasse a senadora Hillary Clinton nas primárias democráticas, talvez pudesse também derrotar o Republicano McCain nas eleições de 4 de Novembro, aproveitando o desastre Sarah Palin e a crise financeira que eclodiu em Wall street, tendo em conta que o povo Americano tendencialmente prefere os Democratas aos Republicanos em assuntos económicos, mas de certeza absoluta que estas eleições deixariam de ser tão “especiais”, tão comentadas, tão participativas e tão expectantes para os Americanos e para o resto do mundo. Poderia causar alguma curiosidade o facto de o McCain ter escolhido uma mulher para Vice-presidente, mas isso já não seria algo novo e poderíamos todos estar ansiosos por conhecer o substituto do W. Bush, mas não “beberíamos” as eleições como o fizemos e nem tomaríamos partido de forma tão desavergonhada e afirmativa como o fizemos pelo Obama negro.
Porque se o Obama fosse branco, não teria a sua história de vida singular para apresentar ao eleitorado fazendo sonhar os mais desfavorecidos, enfatizando a realidade de qualquer um conseguir ser tudo o que quiser nos EUA, mesmo nascendo pobre, sendo de uma minoria étnica e tendo um nome esquisito. Não quebraria a barreira racial e não mostraria ao mundo que a América realmente está a mudar e esta a ultrapassar os traumas do passado que tantas complicações tem causado aos Americanos. O Obama branco, mesmo defendendo os mesmos ideais, mesmo assumindo as mesmas opções politicas estratégicas, não teria o peso da história para sustentar a verdadeira mudança que o Obama negro encarnava e se calhar não reuniria tantas afinidades de quadrantes tão diferentes do complexo mosaico cultural Americano que a certa altura quase que decidiram apostar no ar simpático e na experiencia do velho MacCain.
Será então que o Obama negro é hoje o “nosso” Obama apenas por ser negro?
Naturalmente que não, mas sobretudo por o ser.
O Homem tem carisma, é inteligente, bem parecido, tem sentido de liderança, é excelente orador, pensa pela sua cabeça e tem tido a “estrelinha da sorte” em algumas ocasiões da sua vida, mas tenho quase a certeza de que a sua súbita ascensão politica e a repercussão que teve a sua eleição no mundo inteiro só foi possível porque depois do desastre que foi a administração Bush, estávamos todos ávidos de uma mudança a sério e o tom de pele mais escura do Obama despertou numa esmagadora maioria o sentimento de curiosidade por um cenario nunca antes experimentado e a esperança de que a aposta na novidade e no implausivel poderia ser a unica solução na conjuntura actual para tirar a America da situação em que se encontra. Se é verdade que a cor da sua pele teve papel preponderante na sua ascensão ao cargo de homem mais poderoso do planeta, não é menos verdade que o que contará daqui para frente será a sua competência, o seu bom senso, o seu sentido de estado, a sua inteligência, a sua capacidade em escolher bem e ter pulso sobre a sua equipa e a sua visão estratégica para a América e o mundo de forma a poder deixa-lo um pouco melhor do que o encontrou e embora ainda seja muito cedo, já deu para ver em apenas dois dias de governação que Barack Hussein Obama é totalmente merecedor das altas expectativas mundiais que pesam sobre as suas costas e se nada de muito excepcional acontecer, irá cumprir de forma brilhante o destino para o qual, acredito eu, foi fadado. Que Deus dê vida longa aos seus inimigos, para que assistam de pé às suas vitorias!
Queluz, 22 de Janeiro de 2009-01-23
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
CONVERSAS SOLTAS XI - Sobre a emissão dos primeiros bilhetes de identidade na Ilha do Principe.
Dois São-tomenses residentes no estrangeiro há algum tempo, comentavam assim uma notícia que fez manchete ontem em alguns órgãos de comunicação social lá da terra:
1 – Ontem viveu-se um momento histórico na ilha do Príncipe…
2 – A sério?! O quê que aconteceu de especial? Espera ai, deixa-me adivinhar… Foi declarada a independência da Ilha?
1 – Deixa de gozo, pá.
2 – Deixa-me ver então…Não me digas que finalmente chegou o tal barco para fazer a ligação inter-ilhas?
1 – Olha, nessa quadra festiva isto é que era uma prenda jeitosa para aquela população martirizada, mas também não desta que se concretizou esse sonho.
2 – Epá, assim a vista desarmada não vejo mais nada que pudesse traduzir-se num momento histórico para o Príncipe na conjuntura actual…Será que se concretizou aquela cena do Príncipe se tornar património da humanidade?! Ou ganharam algum prémio internacional de turismo?
1 – Ái se a tua boca fosse certa…a vida deles pegava.
2 - Diz lá então de uma vez, o que aconteceu de tão marcante assim?
1 – Meu caro, é melhor sentares-te para não caíres de lado: Ontem, dia 16 de Dezembro de 2008, 33 anos e alguns meses depois da nossa independência, sua excelência o Primeiro-ministro de São Tomé e Príncipe, Joaquim Rafael Branco emitiu os dois primeiros bilhetes de identidade de cidadão nacional na ilha do Príncipe.
2 – CREDO!!!! Estás a falar a sério? Ainda não se emitiam bilhetes de identidade no Príncipe?
1 – Pois é meu caro, também fiquei assim, suinamente aparvalhado, quando li a notícia no Tela nón. Mas é a pura verdade. É para termos uma ideia da situação de abandono a que estão votados os nossos compatriotas no Príncipe.
2 – Esta é uma situação que devia nos envergonhar a todos enquanto povo de uma Nação soberana. Em pleno século XXI e ter cidadãos que nem tinham acesso ao cartão oficial de identidade?! Incrível! Como é que o pessoal fazia para tratar o B.I? Tinham que ir a São Tomé, como fazem para tratar de tudo o resto, não é?
1 – Duvidas? Mas só aqueles que podiam pagar a passagem e apenas em situação de necessidade, o resto limitava-se a ter a cédula de nascimento, acho eu.
2 – Ou seja, a maioria… Já viste a quantidade de pessoas que passaram uma vida toda sem ter direito ao seu “papel cu foto”?! Podemos dizer agora que mais vale tarde do que muito mais tarde, mas será que isso era assim uma coisa tão complicada e difícil que só ao fim de 33 anos de independência e 13 Governos depois se conseguiu realizar tal façanha? Sinto-me revoltado com essas situações. O tempo vai passando e só lentamente e a muito custo vamos resolvendo os problemas básicos que supostamente deveriam ter nos atormentado apenas nos primeiros anos do pós independência. Nós todos, cada um na sua área e a sua maneira, devíamos e podíamos ter feito muito mais por São Tomé e Príncipe. Não me conformo!
1 – Pois é meu caro, temos a ousadia de querer realizar tantos projectos megalómanos quando ainda nos deparamos com problemas básicos como esse…Queremos fazer portos de agua profunda, criar zonas francas, construir paletes de hotéis para atrair mais turistas, abraçar o mundo e o reverso da medalha é o que se vê: Não temos hospitais em condições, não temos escolas e professores em condições, não temos estradas em condições, mais de metade da população não tem acesso a agua canalizada e a electricidade e faz as suas necessidades fisiológicas ao ar livre no mato ou em latrinas e nem conseguimos resolver a questão da ligação entre as duas parcelas principais do nosso território, isso só para citar algumas questões básicas importantíssimas para o próprio desenvolvimento do país e do povo que a essa altura já devíamos ter resolvido.
2 – Resolvido? Achas?! Tudo o que citaste são coisas que dão muito trabalho a resolver e muito "prejuízo", quando a lógica deles é precisamente o contrario: Fazer pouco e ganhar algum por fora. Isto que andamos a presenciar no nosso País, meu caro, é sobretudo o resultado da política do imediato que tem sido apanágio de todos os Governos que S.T.P conheceu até hoje, uns por sua própria iniciativa, ou por falta dela e outros por se verem obrigados a isso pelas circunstancias do momento. É o resultado da politica do plantar hoje e querer colher já amanha, antes de serem corridos do poder. Ninguém pensa a longo prazo, ninguém se atreve a conceber projectos estruturados e sustentados que sobrevivam ao prazo de validade do seu governo, pois têm medo que outros que lhes sucedam venham a ficar com os louros das obras começadas por eles e se há coisa que o nosso tradicional olho cheio não suporta, é ver outras pessoas a brilharem em cima dos palcos que nós construímos, mesmo que esse palco seja algo fundamental para o bem-estar colectivo.
1 – Pois é, meu caro, tocaste agora no x da questão: O nosso tradicional olho cheio.
Nunca tinha pensado nesses assuntos sob esse prisma, mas tenho que admitir que muito dos desentendimentos e da falta de união que há entre os São-tomenses a todos os níveis e sobretudo a nível do poder, podem se dever a esse problema.
2 – Meu caro, a questão do olho cheio tem muito mais peso do que tu imaginas nos problemas que enfrentamos e a prova disso é o que se tem passado actualmente em dois dos partidos que formam a coligação que esta no poder: No MLSTP sabe-se que há um mal-estar profundo por parte de alguns barões do partido que não foram convidados para a ceia do senhor e queriam entrar a força toda, nem que fosse como patos. Aposto que esses gajos até esfregariam as mãos de contentes se o Branco caísse, não se importando se era bom ou não para o País ter mais um governo que não atingisse a puberdade. No MDFM é a pouca vergonha que se tem assistido desde a queda do Tomé vera Cruz, culminando agora com destituição do Minho de uma forma inacreditável. Agora diz-me, se as pessoas nos seus próprios partidos não são capazes de gerarem consensos dentro do espírito democrático e remarem todos para o mesmo lado, como é que podem levar o País a bom porto?
...E com esta pergunta no ar, deram por terminado este assunto, ficando cada um a pensar nos vários “momentos históricos” que ainda teremos que viver para atingirmos um patamar de desenvolvimento mínimo no nosso S.T.P.
Queluz, 17/12/08
1 – Ontem viveu-se um momento histórico na ilha do Príncipe…
2 – A sério?! O quê que aconteceu de especial? Espera ai, deixa-me adivinhar… Foi declarada a independência da Ilha?
1 – Deixa de gozo, pá.
2 – Deixa-me ver então…Não me digas que finalmente chegou o tal barco para fazer a ligação inter-ilhas?
1 – Olha, nessa quadra festiva isto é que era uma prenda jeitosa para aquela população martirizada, mas também não desta que se concretizou esse sonho.
2 – Epá, assim a vista desarmada não vejo mais nada que pudesse traduzir-se num momento histórico para o Príncipe na conjuntura actual…Será que se concretizou aquela cena do Príncipe se tornar património da humanidade?! Ou ganharam algum prémio internacional de turismo?
1 – Ái se a tua boca fosse certa…a vida deles pegava.
2 - Diz lá então de uma vez, o que aconteceu de tão marcante assim?
1 – Meu caro, é melhor sentares-te para não caíres de lado: Ontem, dia 16 de Dezembro de 2008, 33 anos e alguns meses depois da nossa independência, sua excelência o Primeiro-ministro de São Tomé e Príncipe, Joaquim Rafael Branco emitiu os dois primeiros bilhetes de identidade de cidadão nacional na ilha do Príncipe.
2 – CREDO!!!! Estás a falar a sério? Ainda não se emitiam bilhetes de identidade no Príncipe?
1 – Pois é meu caro, também fiquei assim, suinamente aparvalhado, quando li a notícia no Tela nón. Mas é a pura verdade. É para termos uma ideia da situação de abandono a que estão votados os nossos compatriotas no Príncipe.
2 – Esta é uma situação que devia nos envergonhar a todos enquanto povo de uma Nação soberana. Em pleno século XXI e ter cidadãos que nem tinham acesso ao cartão oficial de identidade?! Incrível! Como é que o pessoal fazia para tratar o B.I? Tinham que ir a São Tomé, como fazem para tratar de tudo o resto, não é?
1 – Duvidas? Mas só aqueles que podiam pagar a passagem e apenas em situação de necessidade, o resto limitava-se a ter a cédula de nascimento, acho eu.
2 – Ou seja, a maioria… Já viste a quantidade de pessoas que passaram uma vida toda sem ter direito ao seu “papel cu foto”?! Podemos dizer agora que mais vale tarde do que muito mais tarde, mas será que isso era assim uma coisa tão complicada e difícil que só ao fim de 33 anos de independência e 13 Governos depois se conseguiu realizar tal façanha? Sinto-me revoltado com essas situações. O tempo vai passando e só lentamente e a muito custo vamos resolvendo os problemas básicos que supostamente deveriam ter nos atormentado apenas nos primeiros anos do pós independência. Nós todos, cada um na sua área e a sua maneira, devíamos e podíamos ter feito muito mais por São Tomé e Príncipe. Não me conformo!
1 – Pois é meu caro, temos a ousadia de querer realizar tantos projectos megalómanos quando ainda nos deparamos com problemas básicos como esse…Queremos fazer portos de agua profunda, criar zonas francas, construir paletes de hotéis para atrair mais turistas, abraçar o mundo e o reverso da medalha é o que se vê: Não temos hospitais em condições, não temos escolas e professores em condições, não temos estradas em condições, mais de metade da população não tem acesso a agua canalizada e a electricidade e faz as suas necessidades fisiológicas ao ar livre no mato ou em latrinas e nem conseguimos resolver a questão da ligação entre as duas parcelas principais do nosso território, isso só para citar algumas questões básicas importantíssimas para o próprio desenvolvimento do país e do povo que a essa altura já devíamos ter resolvido.
2 – Resolvido? Achas?! Tudo o que citaste são coisas que dão muito trabalho a resolver e muito "prejuízo", quando a lógica deles é precisamente o contrario: Fazer pouco e ganhar algum por fora. Isto que andamos a presenciar no nosso País, meu caro, é sobretudo o resultado da política do imediato que tem sido apanágio de todos os Governos que S.T.P conheceu até hoje, uns por sua própria iniciativa, ou por falta dela e outros por se verem obrigados a isso pelas circunstancias do momento. É o resultado da politica do plantar hoje e querer colher já amanha, antes de serem corridos do poder. Ninguém pensa a longo prazo, ninguém se atreve a conceber projectos estruturados e sustentados que sobrevivam ao prazo de validade do seu governo, pois têm medo que outros que lhes sucedam venham a ficar com os louros das obras começadas por eles e se há coisa que o nosso tradicional olho cheio não suporta, é ver outras pessoas a brilharem em cima dos palcos que nós construímos, mesmo que esse palco seja algo fundamental para o bem-estar colectivo.
1 – Pois é, meu caro, tocaste agora no x da questão: O nosso tradicional olho cheio.
Nunca tinha pensado nesses assuntos sob esse prisma, mas tenho que admitir que muito dos desentendimentos e da falta de união que há entre os São-tomenses a todos os níveis e sobretudo a nível do poder, podem se dever a esse problema.
2 – Meu caro, a questão do olho cheio tem muito mais peso do que tu imaginas nos problemas que enfrentamos e a prova disso é o que se tem passado actualmente em dois dos partidos que formam a coligação que esta no poder: No MLSTP sabe-se que há um mal-estar profundo por parte de alguns barões do partido que não foram convidados para a ceia do senhor e queriam entrar a força toda, nem que fosse como patos. Aposto que esses gajos até esfregariam as mãos de contentes se o Branco caísse, não se importando se era bom ou não para o País ter mais um governo que não atingisse a puberdade. No MDFM é a pouca vergonha que se tem assistido desde a queda do Tomé vera Cruz, culminando agora com destituição do Minho de uma forma inacreditável. Agora diz-me, se as pessoas nos seus próprios partidos não são capazes de gerarem consensos dentro do espírito democrático e remarem todos para o mesmo lado, como é que podem levar o País a bom porto?
...E com esta pergunta no ar, deram por terminado este assunto, ficando cada um a pensar nos vários “momentos históricos” que ainda teremos que viver para atingirmos um patamar de desenvolvimento mínimo no nosso S.T.P.
Queluz, 17/12/08
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